26.9.15

Lendo os antigos numa biblioteca moderna


A Biblioteca de São Paulo -- também conhecida por quem é da Zona Norte como Biblioteca do "PJ" --, como toda construção moderna, é um apanhado de contradições. E nem me refiro ao fato de livros de filosofia dividirem prateleira aqui com livros de autoajuda: engulo o insulto asceticamente. Estou falando de arquitetura mesmo. Vista exteriormente, esta construção é mais um daqueles horríveis empilhamentos desordenados de sólidos geométricos brutos, insuportavelmente entediantes, perfeitamente prescindíveis de intervenção humana, aptos à solidão, desoladores, imponentes a seu modo completamente desajeitado -- numa palavra, opressores. Diante de uma construção moderna, tenho sempre a sensação de ver um monstro que brotou do asfalto; elas me lembram burocracia, hospitais, repartições públicas (por isso creio que seu justíssimo destino seja mesmo o que lhes coube: sediar instituições governamentais). A arquitetura moderna nasceu para o Estado, está sempre a nos lembrar de sua existência, faz com que a cidade seja um satélite que orbita ao seu redor, e com a artificialidade de quem sabe que não é bem-vindo mas insiste em estar presente porque tem vocação para a inconveniência, se define hipocritamente como "construção harmoniosamente integrada ao entorno", mas é vista por todos -- os que têm bons olhos, ao menos -- como um elefante branco no meio da sala de estar.

E, no entanto, vista internamente, bem que esta construção tem lá sua beleza -- uma beleza triste, mas, ainda assim, beleza. Olhar, aqui de onde estou, as estantes e pessoas que estão lá embaixo, é como que um caminho invertido para a percepção da nossa pequenez tipicamente ilustrada pelas (plenamente belas) construções clássicas. Nestas, é por olhar de baixo para cima que o percebo, é verdade, ao passo que aqui, olhando de cima para baixo, por um momento me esqueço de que estou entre aqueles pequeninos. Mas logo à frente há uma escada -- bruta, quadrada, inescapável -- pela qual logo eu também terei de descer. Os livros gigantes em formato de avião, que nos sobrevoam a todos, ocupando neste templo o lugar que tipicamente abriga as esculturas de anjos e santos, são um louvor delicado ao poder da imaginação -- um tema de imensurável apreço a todo moderno. E os computadores, lâmpadas e vidros, futuristas, que adornam os andares do prédio em toda a sua extensão, não são exatamente objetos que se deve contemplar, mas muito mais instrumentos pelos quais se vê, ou adereços que refletem sobre o que realmente importa. Uma inversão da arte clássica e cristã, com efeito, que por isso mesmo eu tenderia a tomar como feia. Mas por que vejo beleza (ainda que triste)? Porque aqui, vista de dentro, a construção moderna nos comunica ainda algum resquício de sinceridade. Se ao olhar para uma catedral clássica somos sempre tomados pela consciência da mortalidade -- pois incontáveis homens também a viram e já morreram, e é razoavelmente certo que após eu morrer ela continuará em pé --, o prédio moderno, visto de dentro (inversamente à visão externa: contradição!), não é um arrogante e ingênuo louvor ao progresso, mas um lamento diante da efemeridade. Essas bugigangas frágeis, de atratividade fútil, inseridas num bloco de concreto mal aparado, ilustram ao mesmo tempo o medo do fim e o apego ao que entretém -- a percepção lúcida de que esse prédio deixará de existir, que ele foi feito para acabar, que talvez isso não demore, e provavelmente sua visão não fará falta ao restante da paisagem, sendo absolutamente possível, além do mais, que então nos acabemos juntamente: que (metaforicamente) ele "caia sobre nós".

As catedrais apontam para cima, erguendo-se esbeltas, ao passo que os prédios modernos tendem para o chão, e é com dificuldade que se erguem minimamente, quase somente o necessário para que se possa entrar neles (e caminhar sob seus ameaçadores pesos suspensos). Neste cenário de ambiguidade, embora acompanhado de livros -- o que há demais acolhedor no mundo, para mim --, sou incapaz de me sentir em casa. A arte moderna falha, enfim, em cumprir todo o seu papel. Mas a tudo dá-se um jeito, e o lampejo melancólico de sinceridade moderna não haverá de ficar por isso mesmo: deste ponto em que consigo vislumbrar resquícios de beleza num prédio modernista, ao som de Vivaldi (recomposto por Max Richter), leio São Tomás, o construtor da Suma. Curioso ponto de inflexão da consciência histórica. Neste prédio de contradições, escolho o edifício do paradoxo. Retomo Agostinho, o patrístico, e o atualizo (apenas no necessário): tudo que os gregos -- e os modernos -- fizeram de bom nos pertence por direito.