4.7.14

"Quem inventou o cristianismo não foi Constantino - nem Caio Fábio", no blog Teologia Pentecostal

Abaixo, um trecho da minha coluna no blog Teologia Pentecostal. O link para o texto completo está ao final do post.

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Eu confesso: a entrevista de Caio Fábio ao “TheNoite” (SBT), de Danilo Gentili, me surpreendeu. Surpreendeu-me positivamente, sim, quando o entrevistado insistiu que o profeta Jonas pode ter sido literalmente engolido por um grande peixe e que há possessões demoníacas reais. Isso mostra que Caio não é exatamente um liberal. Surpreendi-me negativamente também, quando ele contou com naturalidade um caso de abuso sexual que sofrera na infância, como fosse uma experiência saudável e recomendável. O flerte com o marcionismo (google it) já não me surpreende. Tampouco o linguajar agressivo – que não é menos contraproducente em personas pretensamente “intelectualizadas” como Caio Fábio do que em figuras mais vulgares como Silas Malafaia ou Datena. Ainda que Caio faça críticas certeiras e necessárias à religiosidade popular evangélica, sua arrogância latente e seu estado de “imponderabilidade quântica” (sic) quase sempre o levam a cometer gafes pueris. Surpreendi-me negativamente principalmente quando o entrevistado, que já estudou a fundo Francis Schaeffer e teve contato com obras de gente como Louis Berkhof, soltou um clichê imperdoável vindo de um homem de estudos: “o cristianismo”, asseverou ele, “é uma invenção de Constantino”.
Eu sei, Caio Fábio não é um “homem de estudos” no sentido “newtoniano” (sic) da palavra, e provavelmente me responderia que Jesus é a chave hermenêutica dos estudos. De fato, Jesus é a chave hermenêutica dos estudos, da Bíblia, de mim, de você. Por isso mesmo, os estudos, a Bíblia e tudo o mais devem ser levados a sério. Mesmo porque há que se reconhecer que Caio Fábio em algum lugar estudou (bem ou mal) esses equívocos que dissemina. Ele não os inventou. E hoje jovens revoltados – sem saber muito bem com o quê – que acreditam na primeira informação que a Wikipedia lhes traz repetem clichês como o supracitado aos borbotões.
Quem, no século passado, dizia algo semelhante ao que disse Caio, mas com elaboração mais refinada, era John Howard Yoder, um anabatista americano, professor na Universidade de Notre Dame, crítico de Reinhold Niehbur. Outro professor de ética cristão com convicções pacifistas, antinacionalistas e, por assim dizer, anticlericais, que recebe grande influência da obra de Yoder, é Stanley Hauerwas, autodenominado pós-liberal. Ele atua ainda hoje, também em Notre Dame; certa vez, chamou a sola scriptura de heresia; defende a teologia narrativa; como intelectual público, fez participações no programa da Oprah Winfrey. Não, não tenho implicância com teólogos que participam de talk shows. Reconheço, Hauerwas é mais profundo que Caio Fábio: também recebe a saudabilíssima influência dos gigantes Dietrich Bonhoeffer e Alasdair MacIntyre (este, ainda vivo).
Pois bem. É em resposta a Hauerwas e, principalmente, Yoder (autor de “The Politics of Jesus” [“A Política de Jesus”]) que surge o livro “Defending Constantine: The Twilight of an Empire and the Dawn of Christendom” [“Defendendo Constantino: O Crepúsculo de um Império e o Alvorecer da Cristandade”] (IVP Academic, 2010), de Peter J. Leithart. Os acólitos de Caio Fábio que queiram se aprofundar nos estudos da História da Igreja fariam bem em acompanhar o debate que o livro desencadeou. Em tempo: Caio e outras figuras do meio teológico evangélico gostam de ostentar as acusações e perseguições que sofreram. Leithart já foi acusado de heresia pelo presbitério da PCA (Presbyterian Church of America). Foi inocentado. Não tem medo da polêmica (escreveu há pouco tempo, na First Things, o excelente artigo “The end of Protestantism” [“O fim do protestantismo”]; talvez o título nos traga à memória um “Deus nos livre de um Brasil evangélico”, de outro figurão tupiniquim – a diferença é que o artigo deste último é pouco mais que um esbirro de ideologia política), mas também não tem medo de estudar e pensar com seriedade ao mesmo tempo em que professa a fé na una e santa Igreja universal.
Quem diz que “o cristianismo é uma invenção de Constantino” está querendo dizer uma de duas coisas: ou que o estabelecimento do núcleo de dogmas e doutrinas que até hoje é considerado a ortodoxia cristã (é a prática comunitária disso que eu preferencialmente entendo por cristianismo) foi decisivamente influenciado por Constantino, que o teria paganizado (parece ser essa a intenção da fala de Caio Fábio, que também menciona a crença numa deusa romana como componente da mixórdia que haveria originado esse “cristianismo”); ou que, antes de Constantino, os cristãos associavam-se e agiam com certa espontaneidade que lhes autorizava a pensar como Caio Fábio pensa hoje, a saber, que “Igreja sou eu, é você” (resposta que ele deu a Danilo Gentili, quando este lhe questionou se o movimento Caminho da Graça não acabaria por se transformar numa igreja como as outras), e que, após Constantino, essa espontaneidade acabou.
Vejamos de perto cada uma das duas hipóteses, a partir da contribuição de Peter Leithart.

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