30.4.14

Por uma teologia da enfermidade

A cura no tanque de Betesda - Bartolomé Esteban Murillo
A fé cristã não é uma coletânea de negações, é um ato constante de afirmação. Não por acaso, a lista de dez mandamentos iniciados com "não" que Deus deu ao povo de Israel encontrou sua forma perfeita na simples afirmação "ame a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a ti mesmo". Deus não se contentou em tratar os israelitas com instruções negativas que, ao serem observadas, permiti-los-iam vê-Lo. Ele quis intervir positivamente, encarnar-se, nascer. Quis, na pessoa do Filho, morrer e ressuscitar, para que nos ficasse a finalidade positiva de ter a vida de Cristo em nós. Se isso é verdadeiro e importante como cremos, deve ter implicações na nossa devoção, na nossa vida cotidiana e também no nosso método apologético.

Apontar e refutar os erros de heresias como a teologia da prosperidade é bom e necessário, mas, se não quisermos ficar no mero legalismo, precisaremos também, e mais urgentemente, de uma atitude positiva. Tendo a pensar que, contra a teologia da prosperidade - essa coisa estranha que entra em declínio e ascensão ao mesmo tempo -, urge apontar seus erros, mas ao mesmo tempo propor algo que a supere. Não algo arbitrário, como é a própria teologia da prosperidade, mas algo que decorra naturalmente do evangelho. Não uma nova teoria no mercado das ideias, uma invenção que se pretende inovadora, um movimento organizado com uma agenda própria, mas uma postura que tem a serenidade de se saber expressão duma verdade antiga e que, por isso mesmo, não está à procura de conquistas para si, mas de anonimato para si e êxito para o bom e velho, o verdadeiro e eterno Evangelho.

Por não se tratar dum movimento organizado, nem duma agenda especial, muito menos duma teoria inovadora, cada um a chame como quiser. Eu a denomino teologia da enfermidade.

Antes de tudo, antes de ser incorreta, antes de ser mesquinha, antes de ser preconceituosa, a teologia da prosperidade é infantil. Ao se deparar com a condição humana caída, como todos nós nalgum momento nos deparamos - condição de pecado, doença, erros, problemas, decepções, fraquezas, pobreza -, ela a princípio sugere a solução que as crianças sugeririam: "vamos fingir que não é assim". Mas o que há de pueril em sua postura termina aqui, pois o que se segue é de uma canalhice só praticável por adultos - adultos bobos: "vamos fingir que só é assim pra quem não é suficientemente bom, pra quem não empreende todos os rituais de purificação que o 'Deus-papai noel que, oh imagine, não poderia lidar com tantos males' exige, porque é possível - sim, ainda é possível - que todo mundo seja próspero e feliz nesta vida".

A atitude correta e madura diante da terrível condição humana é reconhecê-la. Essa é a atitude de Deus. Ele disse a Moisés, na sarça ardente: "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores". O apressado fará questão de notar que o texto bíblico prossegue dizendo: "Portanto, desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel". O verdadeiro teólogo lembrar-se-á de que tal projeto de redenção apenas se inicia com Moisés, e até hoje não terminou. Ele teve seu ápice em Cristo e será consumado quando este voltar para instaurar Seu reino na Terra.

A condição de Israel, a condição dos povos, a condição humana é tão deplorável que Deus, Ele mesmo, teve de se submeter a ela para dar-lhe redenção. E essa era a esperança dos santos e profetas durante a História. Disse Davi, o rei e salmista: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" Palavras que seriam repetidas pelo próprio Deus, o Filho - algo impensável no seio de uma teologia da prosperidade, mas glorioso no seio de uma teologia da enfermidade. Davi ainda diz, mais à frente: "eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no Senhor, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer (...) Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor; e todas as gerações das nações adorarão perante a tua face".

Eis o clamor do homem universal. Não há rituais de purificação que possamos fazer para nos livrarmos dessa condição. Disse Jesus: o Pai "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos". Quando a torre de Siloé caiu sobre dezoito galileus, levando-os a óbito, alguns dos que ficaram vivos pensaram que aquilo lhes ocorrera como castigo a algum pecado. Jesus os advertiu: "Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis".

Mas onde começou essa condição deplorável? No Éden, com a figura do fruto proibido comido por Eva e Adão. E daí o porquê da "teologia da enfermidade". A enfermidade leva-nos de volta ao Éden. Não a um estado de pureza e inocência, mas a um estado de pecado original, de consciência da fraqueza, de descobrimento da nudez. A enfermidade faz-nos enxergar, envergonhados, mais uma vez, que estamos nus perante Deus. Faz-nos lembrar de que a vida na Terra, desde a Queda, é como um avental provisório feito às pressas com folhas de figueira. Que só estaremos revestidos de incorruptibilidade quando aquEle que morreu em Jerusalém voltar em Sua glória. É a enfermidade que nos faz querer vislumbrá-lo. São os espinhos na carne que nos fazem dizer, como Paulo: "sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo". Somos como paralíticos à beira do tanque de Betesda, sem conseguir mergulhar quando suas águas são agitadas, à espera de Jesus, que pode nos curar sem que um anjo desça às águas. Pois, quando em nosso farisaísmo invertido achamos que Jesus comete uma inconveniência ao oferecer perdão para pecados ("quem é que se preocupa com perdão de pecados?"), as Escrituras testificam: "Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, respondeu e disse-lhes: Que arrazoais em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa".

2 comentários:

Michael Craveiro disse...

Meu comentário é simples: edificante, André!

André Quirino disse...

Graças a Deus por isso, Michael!

Abraço!