22.1.14

Pra que serve narrar a Bíblia em forma de séries de televisão?

            A Rede Record de Televisão estreia hoje a sua nova série, Os Milagres de Jesus. Trata-se da continuação de um estilo de séries bem peculiar: a emissora tem produzido, em sequência, a dramatização de vários episódios da Bíblia. Já foram ao ar Ester, Rei Davi, Sansão e Dalila, José do Egito e o importado A Bíblia. Praticamente só os vi através das chamadas que vão ao ar nos intervalos da programação, e ainda assim, raríssimas vezes; mas foi o suficiente para perceber que todos os títulos fazem jus à propaganda de terem sido produzidos com alto nível técnico. Porém, isso não é nem um pouco mais do que se espera de um canal de televisão que conta com os recursos financeiros e a audiência da Record. Esse não é o meu ponto. A crítica que tenho a fazer é quase integralmente negativa. Para mim, as séries bíblicas da emissora são ruins como arte, porque decorrentes de uma cultura¹ que é ruim.
            A verdade é bela
            Há uma cultura muito popular que reza que a arte precisa se restringir a certos assuntos e se privar de outros para ser apreciável. Em outras palavras, é como se a arte precisasse fazer apologia explícita e intencional a uma verdade para poder ser considerada bela. No nicho que produz ou, pelo menos, que comanda a produção das séries da Record e que assiste a elas, essa cultura se manifesta na pergunta demasiado frequente: Isso é gospel ou secular? No sentido que a frase lhe empresta, gospel é tudo que menciona diretamente temas religiosos, de preferência do ponto de vista evangélico², e secular é tudo que não se encaixa na descrição anterior. Os evangélicos seriam obrigados a apreciar somente o que se denomina gospel e manter a maior distância possível do que se denomina secular.
E assim se deturpa grosseiramente tanto o valor da arte quanto o valor da fé.
            Ora, uma arte com uma pauta predeterminada, com seu apelo imaginativo limitado e com objetivos estreitos e inescapáveis, por definição, não é arte. A verdadeira arte envolve, necessariamente, a procura por beleza onde quer que o artista se sinta impelido a procurá-la (mesmo em lugares e situações comumente não considerados belos), a instigação da imaginação e a imprevisibilidade da reação dos apreciadores – seja o encantamento ou o assombro³. Outrossim, uma que seleciona os temas passíveis de observação, que impede o exercício da imaginação e que limita as reações dos crédulos – normalmente, permite-se apenas uma, ou o encantamento ou o assombro  –, por definição, não é fé. A verdadeira fé envolve, necessariamente, uma veracidade abrangente (ou alguém poderia crer em algo que é verdadeiro quando estamos felizes, mas inexplicavelmente se torna falso quando estamos tristes?), uma imaginação ativa (pois, como poder-se-ia crer no que não se vê sem ao menos tentar imaginar o que há além do que se vê?) e, como consequência das duas condições anteriores,  uma riqueza e um equilíbrio de emoções (pois as situações diversas – para as quais o objeto de fé é sempre verdadeiro – e as imaginações variadas – que são instigadas pela fé –, por fazerem referência a algo que transcende a realidade palpável, necessariamente despertarão sensações contraditórias, que só poderão ser equilibradas porque aquilo em que se crê é verdadeiro no encantamento tanto quanto no assombro).
Transformar passagens da Bíblia em séries de TV, por melhores que possam ser as intenções de quem o faz, pode servir de confissão de que não se está muito certo quanto à abrangência da veracidade da fé, quanto à capacidade de resposta da fé para alguém de imaginação ativa e quanto ao consolo que a fé proporciona aos mais variados estados de espírito. Pode ser uma confissão de que não se é capaz de mostrar Deus e Sua graça nas cenas banais do cotidiano, nem de responder aos questionamentos do homem comum relativos à fé, nem de reafirmar a fé em momentos de tristeza, dor ou desespero. Transformar passagens da Bíblia em séries de TV pode servir de confissão de que não se é capaz de pregar Deus, defender a doutrina de Deus e glorificar a Deus filmando uma criança soltando pipa na rua, expondo as dúvidas de um adolescente que começa a se rebelar contra todos ou representando uma mãe que perde seu filho. Todas estas cenas poderiam estar inclusas num seriado ou filme comum – no linguajar vulgar, secular –, mas, se fossem tratadas por um verdadeiro artista, elas seriam capazes de transmitir beleza, de instigar a imaginação (e, quem sabe, a fé) e de satisfazer quem as aprecia, qualquer que fosse a reação provocada nele – encantamento ou assombro.
Na Bíblia, que tem sido transformada em séries de TV pela Record, se lê, em 1 Timóteo 4.4: tudo o que Deus criou é bom [inclusive o chão e o céu que limitam o cenário em que a criança solta pipa, a adolescência que desperta no ser humano dúvidas tão desesperadoras e o filho que partiu, deixando sua mãe aflita, e o destino que o espera], e nada deve ser rejeitado [muito menos pelo artista que se propõe a retratar a realidade!] Também se lê, em 1 Coríntios 10.31: quer façais qualquer coisa [inclusive filmar a criança da pipa, o adolescente em crise ou a mãe enlutada], fazei tudo para a glória de Deus. Ainda mais revelador é o que se lê em Mateus 6.28: o próprio Jesus (sim, o autor dos milagres que serão retratados pela nova série da Record) recorrendo a uma representação secular, ao convidar Seus discípulos a perceberem uma verdade eterna simplesmente vendo os lírios do campo. Que grandes lições de arte! No cristianismo, a arte não precisa fazer apologia explícita e intencional à verdade para poder ser considerada bela; de modo inverso, ela é que deve ser bela para poder fazer apologia à verdade. Parece bom demais para ser assim, mas é exatamente assim, e os evangélicos podem acreditar: a verdade não é somente verdadeira, ela é também bela!
A Bíblia não é um roteiro de televisão
Se o que expus acima foi suficiente para demonstrar que há formas recomendáveis de arte que não narrar as histórias da Bíblia em forma de séries de televisão, resta demonstrar que narrar as histórias da Bíblia em forma de séries de televisão é não recomendável.
Não se trata de dizer que na Bíblia há menos beleza do que na cena da criança soltando pipa. É difícil negar que muitos dos mais belos textos de toda a história da humanidade estejam na Bíblia Sagrada. Mas, se a Bíblia é, de fato, como os cristãos acreditamos, sagrada – Palavra de Deus –, ela não é uma mera coletânea de histórias bonitas. Ela é uma construção sólida e harmoniosa que deve ser vista, tanto quanto possível, em sua completude. Ela é o manual que, como consequência de transformações ainda mais profundas, nos capacitará a ver beleza na cena da criança soltando pipa. As histórias de Ester, Davi, Sansão e José são, no mínimo, desinteressantes e, quase sempre, incompreensíveis para quem não acredita que há um Deus ou que esse Deus tenha se revelado em Jesus Cristo. E fazer os descrentes assistirem a essas histórias pode ser, e quase sempre é, uma colossal perda de tempo, e uma banalização de belas histórias que só fazem sentido à vista de que há um Deus e de que Ele se revelou em Jesus Cristo.
O problema começa, aliás, com a própria escolha das histórias que serão contadas na televisão. Não é difícil adivinhar os critérios utilizados pela TV Record: histórias mais ou menos famosas (com as quais o público se identificará), facilmente dramatizáveis, com forte apelo aos sentimentos que são instigados por qualquer telenovela e que sejam protagonizadas por pessoas simples que em certo ponto da vida se tornam ricas e poderosas. São critérios corriqueiros na indústria televisiva, que não têm nada de mal em si mesmos. Mas tornam-se um desastre quando são produtos de uma cultura rasa como a exposta na primeira parte deste texto e quando banalizam clássicos valiosos – e pertencentes a um contexto maior incontornável – como o são todas as histórias da Bíblia.
Levado em frente o projeto das séries, o que se tem é: cristãos que não conhecem o texto fundante de sua própria religião acessando sites de fofocas para saber o que aconteceu com os personagens bíblicos; outros cristãos, mais bem informados, analisando – como quem faz um serviço importantíssimo e inadiável (é claro que não é) – o quanto a Record alterou das histórias bíblicas originais para produzir suas séries; o público não-cristão tendo seu primeiro contato com as histórias da Bíblia a partir de um ponto de vista melodramático e corrompido em meras histórias de superação; e, para voltar à questão artística, profissionais da arte (autores, atores, produtores, diretores) se embrenhando em papéis que, muito provavelmente, em outras condições, não gostariam de fazer, e que nada de novo terá a acrescentar às suas carreiras.
A Bíblia não é, porque não pretende ser, um roteiro de televisão. Adaptá-la em séries de TV (algo que não exige muito esforço criativo) quando se pode colocar em prática o que ela ensina para, de fato, criar, fazer arte, transmitir beleza, é uma demonstração de pobreza cultural e de uma estupenda preguiça, cujo preço a cobrar é altíssimo: a banalização do sagrado e o desprezo pela arte.
Pra que serve narrar a Bíblia em forma de séries de televisão?
Por esses motivos, narrar a Bíblia em forma de séries de televisão não tem qualquer finalidade artística, e não é recomendável. Serve apenas para o comando da Record, cuja procedência ninguém desconhece, alegar que seu dinheiro é empregado em falar de Deus. Um tremendo desserviço: se a representação do sagrado não servir para revelar um mistério terrível e fascinante4, como o definiu Rudolf Otto, tem-se um sinal, para usar a linguagem fascinantemente artística e terrivelmente real da Bíblia, de que ainda não se tirou as sandálias dos pés5.

NOTAS
¹ Cultura, neste ensaio, é empregada não com o sentido de alta cultura, nem com o de erudição, mas com o de comportamento típico de determinada população – que, neste caso, é considerado manifestação duma baixa cultura e ausência de erudição.
² Evangélico, aqui, não é sinônimo de evangelical (protestante que enfatiza soteriologicamente a conversão pessoal, entre outras coisas), mas refere-se ao estereótipo brasileiro de evangélico (que, no mais das vezes, seria melhor denominado como neopentecostal, mas, a rigor, também não se restringe a esse segmento religioso).
³ Essa classificação está, grosso modo, baseada em: BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica Sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e do Belo. 1993: Editora da Unicamp.
4 A expressão original, em latim, é mysterium tremendum et fascinans e está presente em: OTTO, Rudolf. O Sagrado. 2007: Editora Sinodal, Editora Vozes.
5 Referência a Êxodo 3.5: E disse: Não te chegues para cá; tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa (versão Almeida Revista e Corrigida. 1995: Sociedade Bíblica do Brasil).

3 comentários:

Klaus disse...

http://paradigmaglobalizado.wordpress.com/2013/11/09/irreligiao-e-desenvolvimento/ . Leia e comente se desejar. Se realmente for comentar, capriche, pois seu comentário pode ser usado em algum lugar do livro Deus: A Maior Mentira da História, cuja escritura está em andamento.

Joao Cruzue disse...

André,

A paz de Cristo,

Encaminha seu e-mail para mim, e vou enviar um convite para postar conosco na Associação de Blogueiros Cristãos.
Vi seu perfil e uma amostra do conteúdo dos textos que publica. Gostei. Alguns colegas e eu estamos blogando desde 2005.
Sou o gestor do Blog da Associação e meu blog pessoal é o Olhar Cristão.

Abraço.

Irmão João Cruzué

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André Quirino disse...

Paz, João!

Muito obrigado pelo interesse.


Eu já tinha entrado em contato com você para tratar disso. Já fui adicionado à Associação. Eu tinha deixado para começar a postar quando passasse o período de vestibular. Bem, agora ele já passou. Logo, logo posto um texto lá.

Abraço!