23.12.14

Nosso Natal

Nada aflora meus sentimentos como o Natal – seu brilho, suas cores, suas cantatas. Ele e a Páscoa são os únicos momentos do ano em que é-se lembrado que Cristo não é propriedade de nenhuma religião. Mas espere: essa não é mais uma daquelas frases de efeito politicamente corretas. O ecumenismo do Natal traz mesmo muitos inconvenientes: essa conversa de espírito natalino, fraternidade universal, paz mundial, fé no amor etc. não passa de um disfarce fajuto para a reivindicação – esta, sim, sincera – “não torrem minha paciência, respeitem meu espaço, teçam-me mil loas, torçam pelo meu sucesso e então poderemos nos tolerar”. É claro que a maior parte das celebrações natalinas é incontornavelmente pagã. Mas o mundo é pagão. O que quero dizer, e o Natal me faz lembrar, é que, se uma função vital compete à religião cristã face à humanidade, esta não é a de criar uma mensagem salvadora (fosse esta, tal mensagem seria mui pouco fidedigna), mas a de receber uma mensagem que lhe é – à própria religião cristã – surpreendente, e transmiti-la fielmente. A Natividade foi anunciada, e tal anúncio registrado na Escritura, a astrólogos pagãos. Cristãos que, ano após ano, tentam demonstrar erudição dizendo que o Natal é uma invenção de Constantino, a apropriação de um ritual de louvor ao deus-sol, e debatendo – santo Deus! – se é pecado ter uma árvore de Natal em casa, são duplamente ignorantes. Esquecem-se, exatamente na data mais propícia para se lembrar, de que Cristo é anunciado a todos, e o papel – civilizador, com efeito – da religião cristã é anunciá-Lo na exatidão e plenitude de Sua manifestação.

Este ano, dois aspectos complementares da mensagem do Natal assaltaram-me o pensamento.

O primeiro deles deriva-se de uma fortíssima imagem poética que se repete na obra de um dos maiores cineastas e um dos maiores artistas cristãos contemporâneos, Terrence Malick: a da infância como lugar da verdadeira utopia. O paradoxo é proposital: utopia é negação do topos, é aquilo que não tem lugar. A infância, podemos enxergá-la como um lugar, mas tão somente lugar de transição – o que acarreta benesses e desconfortos. Em The thin red line, Malick apresenta-nos a crianças indígenas, brincando com pedras, nadando no rio, cantando em uníssono as cantigas da aldeia; alegram-se com pouco, são expostas a fortes adversidades: tudo lhes fala de morte, muitas viram suas mães falecendo atormentadas por moléstias, a ameaça de uma invasão estrangeira é constante, o mar é imprevisível porque pode sempre trazer o navio inimigo. No auge da guerra, com a aldeia em farrapos, o questionamento é inevitável: “Esse grande demônio, de onde vem? Como se entranha no mundo? De que semente, de que raiz se desenvolveu? Quem é que está fazendo isso? Quem está nos matando? Furtando-nos de vida e luz, brincando com o que talvez pudéssemos vir a saber... Será que nossa ruína beneficia a Terra de alguma maneira? Será que ajuda a grama a crescer ou o sol a brilhar? Essa escuridão está dentro de ti também? Já teve esse pesadelo também?” Não menos cruenta do que a guerra com armas é a guerra interior a cada ser humano: não se pode negar, o problema está em nós, somos nós que fazemos a guerra. O questionamento que atravessa a mente de quem destrói e de quem vê a destruição é invariavelmente pela imortalidade: de que vale ela, se é que há uma, perante o poder de destruir e o infortúnio de ser destruído? Mas o alvoroço da guerra passará, e então o que ecoará na floresta, o que atravessará o mar, é a cantiga das crianças – cantiga que não morre e assim nos comunica a eternidade. Em The tree of life, a criança aprende sem nenhuma dificuldade o que as freiras ensinam: a diferença entre a natureza e a graça. Quando é constrangida pela impaciência do pai – ao ensinar a tocar piano, ao ensinar a jogar baseball, ao ensinar a capinar o jardim, ao insistir para que jante toda a comida, até ao inquirir como foi seu dia ou fazer-lhe carinhos –, após sentir raiva, refugia-se sob a mãe, e até faz troça do equívoco paterno em achar que a natureza pode vencer a graça. Com a mesma precipitação com que faz travessuras – quebra uma janela, mata um passarinho, briga com o irmão, rouba uma peça de lingerie –, se sensibiliza com aquilo para o que os adultos se esforçam, quase como uma questão de sobrevivência, em não dar atenção: a deficiência física, a senilidade, o banditismo. A infância não é exatamente um paraíso: ser iniciante nas convenções sociais, não saber como se portar na maioria das situações, não saber como se defender da maioria dos perigos, e como não bastasse, poder ser impactado com a morte de um irmão – tudo isso tem um quê de infernal. Mas o mundo é uma criança de Deus, e haverá de ser redimido. Em pular sob as árvores, em correr sob o sol, em cantar em frente ao ventilador em movimento, nessas banalidades sinceras está a Alegria – a Alegria à qual nos dirigimos ansiosamente durante toda a vida, da qual nos esforçamos por lembrar quando somos achatados por prédios cinzentos, por preocupações de adultos, por cansaço e falta de tempo. No fim, naquela imortalidade anunciada pelo canto das crianças de The thin red line, dois retornos serão igualmente redentores: o do irmão que falecera e o da infância que se fora. A fraternidade não é mais implicada pelo medo e pela insegurança, mas se mostra uma fraternidade esclarecida. Ali até o pai demonstra graça para com os filhos; os abraços são desinteressados porque tudo o que se pode desejar já é presente e atual. Não doar é uma impossibilidade sob o doce constrangimento da doação absoluta. A eternidade é a apreensão daquilo que nos escapa: da infância. Mas não de qualquer infância, e sim da infância redimida, da infância sob o império da Graça, sob o cuidado direto e permanente do verdadeiro Pai.


O segundo aspecto da mensagem do Natal a assaltar-me o pensamento este ano deriva-se diretamente da expressão de fé apostólica, registrada na Escritura, no “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. Os cristãos veem-se graciosamente surpreendidos com o privilégio de se referirem a Deus, não como o Deus de antepassados desconhecidos e mortos, não como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, mas como o Deus daquEle que é atualmente nosso Senhor, daquEle que conhecemos pessoalmente – e não somente Deus, mas Pai de nosso Senhor. Conhecemos Deus não como aquEle que se revelou contidamente a patriarcas, mas como aquEle que nada esconde de nosso Senhor, que com Ele é Um só, que com Ele está em comunhão desde sempre e para sempre, e que O enviou pessoalmente até nós. Por isso, nossa relação com Deus não depende de nossa filiação a profetas antigos – quão frágil é tal filiação: “Até dessas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão!” –, mas de nossa fé naquEle que é gerado de Deus, de Sua natureza, Seu unigênito. Não é de nossas relações, de nosso trato para com a família, o clã ou o povo, de nossas obras, que a nossa salvação depende. Recebemo-la de graça porque Cristo é Filho de Deus e, nEle, podemos nós também sê-lo. Podemos nos confortar em saber que só somos filhos de Deus porque antes disso Jesus é filho de Deus, que Deus só é nosso Pai porque antes disso Ele é Pai de Jesus, numa relação perfeita: nossa infância foi redimida. Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!


Esses dois aspectos da mensagem do Natal parecem-me complementar-se na síntese realizada por Michel Henry com sua fenomenologia da vida (e torna-se ainda mais interessante citá-lo quando se lembra que Malick, que também tem formação em Filosofia, é especialista em Heidegger): com a encarnação do Verbo, não apenas podemos dizer que Deus se revelou remotamente, mas também que a carne passa a revelar o Verbo. “[...] a Encarnação do Verbo é sua revelação, sua habitação entre nós. Se podemos ter relação com Deus e ser salvos nesse contato com ele, é porque seu Verbo se fez carne em Cristo. A revelação de Deus aos homens é, pois, aqui, a existência da carne. É a própria carne como tal que é revelação” (Encarnação: uma filosofia da carne, p. 28). Nenhuma carne pode ser encontrada no limo da terra: nele só há corpos. “Algo como uma carne só pode advir e nos advém do Verbo” (idem, p. 31). De onde vem o grande demônio aludido em The thin red line permanece, em última instância, um mistério, mas pudemos assistir à vinda do grande Deus, e Ele nasceu de uma mulher!


Desde então, todas as noites são felizes como aquela em que a virgem concebeu em Belém. Desde então, os anjos não param de entoar: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens aos quais Ele concede o Seu favor”. Podemos olhar para uma criança e, com toda a sua imperfeição, com toda a nossa imperfeição, vermos uma imagem de Cristo. Foi para ela, foi para nós, foi para as crianças aldeãs que Deus se fez homem. Essa é a garantia de cumprimento da verdadeira utopia. Quão glorioso é sabê-lo! Quão glorioso é anunciá-lo! Nossa fé não poderia ter um fundamento mais firme: ainda que o mundo desabe, um lugar abrigará a esperança, e para lá deveremos olhar – a manjedoura.

27.11.14

"Peso de glória: a noção cristã de inferno", no blog Teologia Pentecostal

Tomo emprestada parte do título da obra de C. S. Lewis Peso de Glória porque ele mesmo já a emprestara de Paulo, o apóstolo: “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2 Co 4.17). A princípio, esse texto parece trazer em si um termo incompreensível: “peso de glória”, que viria a ser isso? “Peso” se refere a coisas materiais, com extensão, que se pode mensurar; “glória” traz-nos à mente brilhos ofuscantes, lampejos etéreos, emanações espirituais. “Peso de glória”, numa primeira audição, soa tão incompreensível quanto “metros de saudade” ou “graus de madeira”.
Peso de glória é um convite ao conhecimento. Por seu caráter paradoxal, o termo se nos impõe, como um peso. A tribulação que enfrentamos na terra é leve – pesada é a glória que ela produz no céu. O termo aponta, de um lado, para a unidade da criação de Deus: o que se faz na terra tem efeito no céu – assim não fosse, Jesus não poderia ter legado à Igreja chaves para ligar e desligar coisas na terra e no céu. De outro lado, tal unidade não é do tipo panteísta, que equipara ontologicamente tudo o que existe: o termo não nega a contradição entre o que pesa e o que resplandece, mas a radicaliza – é surpreendente que haja um peso de glória, que a glória pese. E noto ainda uma terceira intuição subjacente ao termo “peso de glória”: dá-se, entre os elementos opostos, uma primazia de significado à glória – é ela que pesa, o que pesa é a glória: tribulações são leves – e uma primazia de sensação ao peso – a glória sobressai-se à tribulação porque pesa. O peso não é a glória, a glória não é o peso, mas a glória pesa, pode-se sentir a glória – e, perante ela, as tribulações são leves.
A noção cristã de céu, portanto, não é como a arcaica, que projeta brutamente para um além as benesses tidas como ideais, e que para a maioria das pessoas são intangíveis, nesta vida – sombra, água fresca e mulheres bonitas ad infinitum. Também não é como a espiritualista, que imagina a eternidade como uma vadeação errante de espíritos desincorporados, que eventualmente podem se alegrar ou sofrer como recompensa ou castigo de atos outrora cometidos em corpo. Há uma continuidade, e constantes intercâmbios, entre esta vida e a que há de vir. O céu não é só de peso, como também não é só de glória: é de um peso de glória.
Mas, assim como a esperança cristã contempla o peso e contempla a glória, o evangelho fala de céu e fala de inferno. E, se quisermos pregar fielmente todo o conselho de Deus, deveremos saber comunicar ao mundo a eminência do juízo sem fazer depender essa anunciação de imaginações arcaicas. Caso contrário, continuará a parecer atraente ao mundo moderno a escatologia isenta de inferno – e, por conseguinte, isenta de juízo – dos universalistas e outros liberais.
Entendo que as menções bíblicas ao inferno apontam para a existência de um peso de condenação. (...)

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16.10.14

"A resposta pentecostal à condição pós-moderna", no blog Teologia Pentecostal

Que a chamada pós-modernidade seja, na maioria de seus aspectos, uma radicalização das crenças e costumes modernos, boa parte dos analistas culturais tem sido propensa a concordar. Mas há, sim, e em decorrência mesmo dessa radicalização, rupturas significativas entre a autoimagem sustentada pelo homem moderno e a imagem que o homem pós- ou hiper-moderno forma de si. Grosso modo, talvez possamos traçar que na modernidade o homem se enxergava como um observador científico, habilitado a detectar objetivamente as deficiências do mundo e propor invenções que as solucionariam. Já o homem hiper-moderno carrega consigo uma melancolia pelos morticínios do século XX e uma descrença no poder esclarecedor da ciência.
(...)
Neste cenário, o materialismo, que fora até então o grande inimigo da fé, vai perdendo sua força. Ao analisar objetos brutos isolados para explicar seu funcionamento, ele abstrai da condição humana seu caráter temporal, histórico, dramático. Exige das doutrinas religiosas um naturalismo que nem o próprio mundo nos autoriza a sustentar. Torna-se evidente que as religiões podem e devem oferecer respostas absurdas porque a própria condição humana é absurda. Para os padrões de quem de repente se vê lançado num mundo, caminhando entre seres semelhantes, relacionando-se com eles, participando de uma história, construindo uma narrativa, ser criado e redimido por um Deus todo-poderoso é totalmente coerente. Não pode dogmaticamente chamar mito a tal narrativa cósmica quem irremediavelmente vive no sonho da existência e da ação. A vida é um caminho sem volta que, se pode ser desfrutado em vão de algum modo, certamente não o será por quem concebê-la na plenitude de sua absurdidade. 
A teologia pentecostal pode emergir, neste contexto, como uma abordagem cristã particularmente atraente, por dois motivos.

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7.9.14

"Marina Silva, a democracia e a Assembleia de Deus", no blog Teologia Pentecostal

Hoje, no blog Teologia Pentecostal: um texto escrito a quatro mãos – por mim e pelo amigo Gutierres Siqueira – sobre a assembleiana que pode estar prestes a se tornar a nova presidente do Brasil, e algumas implicações dessa possibilidade. Para ler o texto, clique aqui.

27.8.14

"Da atualidade do Antigo Testamento e do primitivismo dos pós-cristãos", no blog Teologia Pentecostal

Alguém já disse que acreditar em Deus ficou mais difícil depois que se inventou a energia elétrica. “Por que apelar a um ser supremo que começou a criar o mundo dizendo ‘Haja luz’ quando o homem pode fazer surgir luz diante de si no simples ato de apertar um interruptor numa parede?”, pergunta-se o homem moderno. A descrença é especialmente enfática quando se está diante do Antigo Testamento. Aos olhos modernos, as narrativas veterotestamentárias permeadas de sangue parecem demasiado impuras, não condizentes com o nosso ideal de boa religião. Entre cristãos, a descrença se atenua, mas permanece como seu resquício um desconforto. Temos dificuldade em pregar toda a Palavra inspirada (2 Tm 3.16), que inclui os escritos primitivos – destinados ao nosso ensino (Rm 15.4) –, para uma sociedade que se crê avançada o suficiente para superar as guerras passadas e futuras.
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4.7.14

"Quem inventou o cristianismo não foi Constantino - nem Caio Fábio", no blog Teologia Pentecostal

Abaixo, um trecho da minha coluna no blog Teologia Pentecostal. O link para o texto completo está ao final do post.

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Eu confesso: a entrevista de Caio Fábio ao “TheNoite” (SBT), de Danilo Gentili, me surpreendeu. Surpreendeu-me positivamente, sim, quando o entrevistado insistiu que o profeta Jonas pode ter sido literalmente engolido por um grande peixe e que há possessões demoníacas reais. Isso mostra que Caio não é exatamente um liberal. Surpreendi-me negativamente também, quando ele contou com naturalidade um caso de abuso sexual que sofrera na infância, como fosse uma experiência saudável e recomendável. O flerte com o marcionismo (google it) já não me surpreende. Tampouco o linguajar agressivo – que não é menos contraproducente em personas pretensamente “intelectualizadas” como Caio Fábio do que em figuras mais vulgares como Silas Malafaia ou Datena. Ainda que Caio faça críticas certeiras e necessárias à religiosidade popular evangélica, sua arrogância latente e seu estado de “imponderabilidade quântica” (sic) quase sempre o levam a cometer gafes pueris. Surpreendi-me negativamente principalmente quando o entrevistado, que já estudou a fundo Francis Schaeffer e teve contato com obras de gente como Louis Berkhof, soltou um clichê imperdoável vindo de um homem de estudos: “o cristianismo”, asseverou ele, “é uma invenção de Constantino”.
Eu sei, Caio Fábio não é um “homem de estudos” no sentido “newtoniano” (sic) da palavra, e provavelmente me responderia que Jesus é a chave hermenêutica dos estudos. De fato, Jesus é a chave hermenêutica dos estudos, da Bíblia, de mim, de você. Por isso mesmo, os estudos, a Bíblia e tudo o mais devem ser levados a sério. Mesmo porque há que se reconhecer que Caio Fábio em algum lugar estudou (bem ou mal) esses equívocos que dissemina. Ele não os inventou. E hoje jovens revoltados – sem saber muito bem com o quê – que acreditam na primeira informação que a Wikipedia lhes traz repetem clichês como o supracitado aos borbotões.
Quem, no século passado, dizia algo semelhante ao que disse Caio, mas com elaboração mais refinada, era John Howard Yoder, um anabatista americano, professor na Universidade de Notre Dame, crítico de Reinhold Niehbur. Outro professor de ética cristão com convicções pacifistas, antinacionalistas e, por assim dizer, anticlericais, que recebe grande influência da obra de Yoder, é Stanley Hauerwas, autodenominado pós-liberal. Ele atua ainda hoje, também em Notre Dame; certa vez, chamou a sola scriptura de heresia; defende a teologia narrativa; como intelectual público, fez participações no programa da Oprah Winfrey. Não, não tenho implicância com teólogos que participam de talk shows. Reconheço, Hauerwas é mais profundo que Caio Fábio: também recebe a saudabilíssima influência dos gigantes Dietrich Bonhoeffer e Alasdair MacIntyre (este, ainda vivo).
Pois bem. É em resposta a Hauerwas e, principalmente, Yoder (autor de “The Politics of Jesus” [“A Política de Jesus”]) que surge o livro “Defending Constantine: The Twilight of an Empire and the Dawn of Christendom” [“Defendendo Constantino: O Crepúsculo de um Império e o Alvorecer da Cristandade”] (IVP Academic, 2010), de Peter J. Leithart. Os acólitos de Caio Fábio que queiram se aprofundar nos estudos da História da Igreja fariam bem em acompanhar o debate que o livro desencadeou. Em tempo: Caio e outras figuras do meio teológico evangélico gostam de ostentar as acusações e perseguições que sofreram. Leithart já foi acusado de heresia pelo presbitério da PCA (Presbyterian Church of America). Foi inocentado. Não tem medo da polêmica (escreveu há pouco tempo, na First Things, o excelente artigo “The end of Protestantism” [“O fim do protestantismo”]; talvez o título nos traga à memória um “Deus nos livre de um Brasil evangélico”, de outro figurão tupiniquim – a diferença é que o artigo deste último é pouco mais que um esbirro de ideologia política), mas também não tem medo de estudar e pensar com seriedade ao mesmo tempo em que professa a fé na una e santa Igreja universal.
Quem diz que “o cristianismo é uma invenção de Constantino” está querendo dizer uma de duas coisas: ou que o estabelecimento do núcleo de dogmas e doutrinas que até hoje é considerado a ortodoxia cristã (é a prática comunitária disso que eu preferencialmente entendo por cristianismo) foi decisivamente influenciado por Constantino, que o teria paganizado (parece ser essa a intenção da fala de Caio Fábio, que também menciona a crença numa deusa romana como componente da mixórdia que haveria originado esse “cristianismo”); ou que, antes de Constantino, os cristãos associavam-se e agiam com certa espontaneidade que lhes autorizava a pensar como Caio Fábio pensa hoje, a saber, que “Igreja sou eu, é você” (resposta que ele deu a Danilo Gentili, quando este lhe questionou se o movimento Caminho da Graça não acabaria por se transformar numa igreja como as outras), e que, após Constantino, essa espontaneidade acabou.
Vejamos de perto cada uma das duas hipóteses, a partir da contribuição de Peter Leithart.

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8.6.14

"Não tenha medo dos meteorologistas", no blog Teologia Pentecostal

Sempre que chove, podemos ter duas certezas: a cidade de São Paulo vai parar e ouviremos algum evangélico dizer: “Tá vendo só? Os meteorologistas disseram que não ia chover. Nisso é que dá querer saber mais do que Deus...” Este é um dos muitos lugares comuns que só alcançaram unanimidade pelas vias da repetição acrítica. Acontece que ele revela um medo infundado e desnecessário, o qual, antes ainda de ser socialmente danoso, é biblicamente ignorante: o medo dos cientistas.
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3.5.14

"Desmitologizando o liberalismo teológico", no blog Teologia Pentecostal

O liberalismo teológico é o que há de mais reacionário no mundo das ideias. Eu poderia dizer que ele é um retorno ao paganismo, mas isso seria subestimar o paganismo. No paganismo, permitia-se à razão humana criar as histórias sagradas que gerariam os dogmas, mas depois procurava-se a confirmação destes no que parecesse ser revelações. No cristianismo, tem-se a revelação, e ela própria é o único dogma, a partir do qual desenvolvem-se as doutrinas. No liberalismo, a revelação não está nem antes nem depois dos dogmas ou doutrinas - fundamentalmente porque não os há, nem os dogmas e doutrinas, nem a revelação.
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30.4.14

Por uma teologia da enfermidade

A cura no tanque de Betesda - Bartolomé Esteban Murillo
A fé cristã não é uma coletânea de negações, é um ato constante de afirmação. Não por acaso, a lista de dez mandamentos iniciados com "não" que Deus deu ao povo de Israel encontrou sua forma perfeita na simples afirmação "ame a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a ti mesmo". Deus não se contentou em tratar os israelitas com instruções negativas que, ao serem observadas, permiti-los-iam vê-Lo. Ele quis intervir positivamente, encarnar-se, nascer. Quis, na pessoa do Filho, morrer e ressuscitar, para que nos ficasse a finalidade positiva de ter a vida de Cristo em nós. Se isso é verdadeiro e importante como cremos, deve ter implicações na nossa devoção, na nossa vida cotidiana e também no nosso método apologético.

Apontar e refutar os erros de heresias como a teologia da prosperidade é bom e necessário, mas, se não quisermos ficar no mero legalismo, precisaremos também, e mais urgentemente, de uma atitude positiva. Tendo a pensar que, contra a teologia da prosperidade - essa coisa estranha que entra em declínio e ascensão ao mesmo tempo -, urge apontar seus erros, mas ao mesmo tempo propor algo que a supere. Não algo arbitrário, como é a própria teologia da prosperidade, mas algo que decorra naturalmente do evangelho. Não uma nova teoria no mercado das ideias, uma invenção que se pretende inovadora, um movimento organizado com uma agenda própria, mas uma postura que tem a serenidade de se saber expressão duma verdade antiga e que, por isso mesmo, não está à procura de conquistas para si, mas de anonimato para si e êxito para o bom e velho, o verdadeiro e eterno Evangelho.

Por não se tratar dum movimento organizado, nem duma agenda especial, muito menos duma teoria inovadora, cada um a chame como quiser. Eu a denomino teologia da enfermidade.

Antes de tudo, antes de ser incorreta, antes de ser mesquinha, antes de ser preconceituosa, a teologia da prosperidade é infantil. Ao se deparar com a condição humana caída, como todos nós nalgum momento nos deparamos - condição de pecado, doença, erros, problemas, decepções, fraquezas, pobreza -, ela a princípio sugere a solução que as crianças sugeririam: "vamos fingir que não é assim". Mas o que há de pueril em sua postura termina aqui, pois o que se segue é de uma canalhice só praticável por adultos - adultos bobos: "vamos fingir que só é assim pra quem não é suficientemente bom, pra quem não empreende todos os rituais de purificação que o 'Deus-papai noel que, oh imagine, não poderia lidar com tantos males' exige, porque é possível - sim, ainda é possível - que todo mundo seja próspero e feliz nesta vida".

A atitude correta e madura diante da terrível condição humana é reconhecê-la. Essa é a atitude de Deus. Ele disse a Moisés, na sarça ardente: "Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores". O apressado fará questão de notar que o texto bíblico prossegue dizendo: "Portanto, desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel". O verdadeiro teólogo lembrar-se-á de que tal projeto de redenção apenas se inicia com Moisés, e até hoje não terminou. Ele teve seu ápice em Cristo e será consumado quando este voltar para instaurar Seu reino na Terra.

A condição de Israel, a condição dos povos, a condição humana é tão deplorável que Deus, Ele mesmo, teve de se submeter a ela para dar-lhe redenção. E essa era a esperança dos santos e profetas durante a História. Disse Davi, o rei e salmista: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" Palavras que seriam repetidas pelo próprio Deus, o Filho - algo impensável no seio de uma teologia da prosperidade, mas glorioso no seio de uma teologia da enfermidade. Davi ainda diz, mais à frente: "eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me veem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no Senhor, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer (...) Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor; e todas as gerações das nações adorarão perante a tua face".

Eis o clamor do homem universal. Não há rituais de purificação que possamos fazer para nos livrarmos dessa condição. Disse Jesus: o Pai "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos". Quando a torre de Siloé caiu sobre dezoito galileus, levando-os a óbito, alguns dos que ficaram vivos pensaram que aquilo lhes ocorrera como castigo a algum pecado. Jesus os advertiu: "Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis".

Mas onde começou essa condição deplorável? No Éden, com a figura do fruto proibido comido por Eva e Adão. E daí o porquê da "teologia da enfermidade". A enfermidade leva-nos de volta ao Éden. Não a um estado de pureza e inocência, mas a um estado de pecado original, de consciência da fraqueza, de descobrimento da nudez. A enfermidade faz-nos enxergar, envergonhados, mais uma vez, que estamos nus perante Deus. Faz-nos lembrar de que a vida na Terra, desde a Queda, é como um avental provisório feito às pressas com folhas de figueira. Que só estaremos revestidos de incorruptibilidade quando aquEle que morreu em Jerusalém voltar em Sua glória. É a enfermidade que nos faz querer vislumbrá-lo. São os espinhos na carne que nos fazem dizer, como Paulo: "sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo". Somos como paralíticos à beira do tanque de Betesda, sem conseguir mergulhar quando suas águas são agitadas, à espera de Jesus, que pode nos curar sem que um anjo desça às águas. Pois, quando em nosso farisaísmo invertido achamos que Jesus comete uma inconveniência ao oferecer perdão para pecados ("quem é que se preocupa com perdão de pecados?"), as Escrituras testificam: "Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, respondeu e disse-lhes: Que arrazoais em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa".

30.3.14

"Igreja: a grata surpresa da racionalidade", no blog Teologia Pentecostal

Por envolver necessariamente momentos de solidão, a vida intelectual pode nos levar a gostar do afastamento, a preferi-lo em comparação à comunidade, e por extensão, a gostar da polêmica barata, supostamente válida per si, sem intenção de ser construtiva, meramente movida pelo desejo de parecer subversivo (seja a um público externo, seja a si mesmo). Isso é comum na maioria das ciências. Deveria ser comum na teologia? Bem, considerando que os teólogos (de todas as religiões) são quase unânimes em dizer que Deus é aquele que pode em si fazer comungar os indivíduos porque é o Uno de quem deriva toda a diversidade da criação, a resposta a essa pergunta é "não". Mas, se a pergunta fosse "isso é comum na teologia?", a resposta seria "sim" - e pior: principalmente na teologia cristã.

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28.3.14

Do resto e do Mesmo

Na galeria dos clichês com que se pode iniciar um texto, deve possuir seu espaço garantido a expressão "mais do mesmo". Há quem reconheça, num exercício de modéstia, ao tratar de determinados assuntos, que sabe estar apenas falando mais do mesmo. Outros advertem, mormente como um disfarce à imodéstia, tratando-se dos mesmos ou de outros assuntos, que, apesar de parecer o contrário, não estão falando mais do mesmo. É quase sempre o mesmo: o clichê é o subterfúgio de quem não sabe revisitar um tema sem repetir os próprios termos e deseja disfarçar esse defeito. Mas não quero disfarçar o meu defeito - pelo menos não agora: este é também o meu caso. Resistir aos clichês é para pouquíssimos, e mesmo esta assertiva é dos mais desgastados jargões. O fato é que à maioria dos que escrevem, em algum momento, resta o clichê. Em algum momento, o clichê é o que nos resta. Recorramos, pois, a mais um: se a escrita é o sacerdócio do escritor, e a beleza literária conjugada à solidez do conteúdo é seu alvo, toda vez em que ele apela ao resto e se esquece do substancial é como se sacrificasse seu dom em altar de deus estranho. Apelar ao resto como tendo primazia é sempre apostasia, idolatria. Via de regra, apela-se ao resto quando se nega o mesmo. Abandonemos, portanto, a associação entre clichê e mesmo. Associemos clichê e resto. Pois é possível tratar do mesmo sem ajoelhar-se ao clichê. Aliás, é precisamente quando se fala do mesmo que se pode julgar a dependência ou independência de um autor para com os clichês. Clichê é menos do mesmo e mais do resto. Aonde essa constatação nos levará?

Ler o Antigo Testamento é um convite à inquietação. Ele sempre nos provoca com um retrato nu e cru do ser humano e dos povos, e nos surpreende com a maneira invariavelmente justa e não obstante misericordiosa de Deus intervir em nossa miséria. Pela boca de Isaías, Ele narrou aos israelitas, como estes não soubessem o que eles mesmos faziam, todo o processo de confecção de um ídolo. Quão tenebroso não será ouvir do próprio Deus, perfeito em santidade, o relato minucioso de nossas transgressões! É o que se lê no livro homônimo ao profeta, capítulo 44. Com nossas próprias mãos, e com não pouco esforço, fabricamos nossos deuses. Esquentamos o metal, desenhamos com giz um rosto na madeira. É tudo tão terreno que até queimamos uma parte da mesma madeira para fazer fogo. Você assa uma carne nele, come, fica satisfeito e, logo em seguida, como completa o próprio Deus, no versículo 17: "(...) do resto faz um deus, uma imagem de escultura; ajoelha-se diante dela, e se inclina, e lhe dirige a sua oração, e diz: 'Livra-me, porquanto tu és o meu deus'" (grifo nosso). Quão efêmero se torna o prazer causado pelas transgressões quando ouvimos o Todo-Santo relatá-las com detalhes!

Do resto fazemos um deus. Sofremos a tentação de determinar todo o nosso plano de vida, os detalhes da carreira profissional, cada passo da trajetória acadêmica, como será o cônjuge, quantos serão os filhos, qual será a marca do carro, em que bairro estará a casa, com que idade virá a aposentadoria, e do resto, do que sobrar, só depois, fazermos um deus, e como bobos alegres o adorarmos, como ele fosse grande. Sofremos a tentação de desenvolver todo um novo sistema filosófico, desprezando o longo caminho já percorrido pela Igreja que Cristo fundou, e resolvermos de uma vez por todas, por nós mesmos, os problemas mais intrincados que ocorrem à razão humana, a origem do mal, o destino político das sociedades, trechos da Bíblia que não seriam confiáveis, depois de qual sequência de eventos se dará o fim do mundo, e do resto, do que sobrar, só depois, fazermos um deus, e como bobos alegres o adorarmos, como ele fosse grande. Mas, se somos nós que concebemos esse deus, como pode ele ser grande? Se ele vem do resto daquilo que usamos para nos satisfazer carnalmente, como pode ele ser Deus? Se ele é só um encaixe para um plano de vida, então não é Deus, mas um acessório. Se ele é só um remendo para uma teoria, então não é Deus, mas uma ideia.

O Deus do Antigo Testamento, que é o mesmo do Novo, dá o diagnóstico do mal, mas em companhia a este oferece a receita para a cura; indica o erro, mas não sem esclarecer qual é a verdade. E, no capítulo 43 do mesmo livro, lê-se na parte do versículo 10: "Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e o meu servo, a quem escolhi; para que o saibas, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo". O Deus dos israelitas afirma que é o único, que não há deus antes, depois ou fora dEle, que não há contradições dentro de si, que é eterno, infinito, imutável e aquEle a quem toda a criação converge, aquEle a quem toda boca deve confessar e todo coração deve adorar: o Ser, aquEle que é, o Mesmo. Perguntará o desavisado: não é no mesmo, no repetitivo, no incessante, que está o tédio, o desinteressante, o clichê? Na verdade, como vimos no começo deste texto, é no resto que está o clichê - o resto do qual fazemos ídolos. No mesmo não há mesmice, pois, na definição do próprio Deus - o Mesmo -, testemunhas servem para levar os outros a dizerem sobre o que é testemunhado: "Verdade é" (v. 9). Deus conclama Israel e a Igreja a serem testemunhas do Mesmo, a levarem os outros a dizerem sobre o Mesmo: verdade é. O mesmo só é clichê quando é disfarce, falta de criatividade, ignorância, quando é resto, subterfúgio daqueles a quem falta a verdade. Mas, quando o mesmo é verdade, quando o Mesmo é a Verdade, ele é tudo o que não é clichê.

De fato, tudo pode ser classificado entre Mesmo e resto. Há o Mesmo e há o resto. Deus é o Mesmo, nós somos o resto. Nós somos o clichê, e a maior aventura que nos é proposta na vida é enxergar o Mesmo nos fatos diversos. Não planejar a vida inteira para depois encaixar Deus em algum lugar dela. Não desenvolver toda uma filosofia para depois usar Deus para justificar algum detalhe nela. Na história do judaísmo e do cristianismo, primeiro recebe-se e vive-se o Mesmo para depois, por influência dEle, santificar-se o resto. Há espaço para o resto? É claro que há. Mas somente almejando e partindo do Mesmo. Não se começa pelo resto, mas pelo Mesmo. Nem se termina no resto, mas no Mesmo. A maior aventura que é proposta a cada cristão é ajudar o mundo a enxergar o Mesmo. A maior aventura que é proposta à Igreja é falar mais do Mesmo e menos do resto.

22.1.14

Pra que serve narrar a Bíblia em forma de séries de televisão?

            A Rede Record de Televisão estreia hoje a sua nova série, Os Milagres de Jesus. Trata-se da continuação de um estilo de séries bem peculiar: a emissora tem produzido, em sequência, a dramatização de vários episódios da Bíblia. Já foram ao ar Ester, Rei Davi, Sansão e Dalila, José do Egito e o importado A Bíblia. Praticamente só os vi através das chamadas que vão ao ar nos intervalos da programação, e ainda assim, raríssimas vezes; mas foi o suficiente para perceber que todos os títulos fazem jus à propaganda de terem sido produzidos com alto nível técnico. Porém, isso não é nem um pouco mais do que se espera de um canal de televisão que conta com os recursos financeiros e a audiência da Record. Esse não é o meu ponto. A crítica que tenho a fazer é quase integralmente negativa. Para mim, as séries bíblicas da emissora são ruins como arte, porque decorrentes de uma cultura¹ que é ruim.
            A verdade é bela
            Há uma cultura muito popular que reza que a arte precisa se restringir a certos assuntos e se privar de outros para ser apreciável. Em outras palavras, é como se a arte precisasse fazer apologia explícita e intencional a uma verdade para poder ser considerada bela. No nicho que produz ou, pelo menos, que comanda a produção das séries da Record e que assiste a elas, essa cultura se manifesta na pergunta demasiado frequente: Isso é gospel ou secular? No sentido que a frase lhe empresta, gospel é tudo que menciona diretamente temas religiosos, de preferência do ponto de vista evangélico², e secular é tudo que não se encaixa na descrição anterior. Os evangélicos seriam obrigados a apreciar somente o que se denomina gospel e manter a maior distância possível do que se denomina secular.
E assim se deturpa grosseiramente tanto o valor da arte quanto o valor da fé.
            Ora, uma arte com uma pauta predeterminada, com seu apelo imaginativo limitado e com objetivos estreitos e inescapáveis, por definição, não é arte. A verdadeira arte envolve, necessariamente, a procura por beleza onde quer que o artista se sinta impelido a procurá-la (mesmo em lugares e situações comumente não considerados belos), a instigação da imaginação e a imprevisibilidade da reação dos apreciadores – seja o encantamento ou o assombro³. Outrossim, uma que seleciona os temas passíveis de observação, que impede o exercício da imaginação e que limita as reações dos crédulos – normalmente, permite-se apenas uma, ou o encantamento ou o assombro  –, por definição, não é fé. A verdadeira fé envolve, necessariamente, uma veracidade abrangente (ou alguém poderia crer em algo que é verdadeiro quando estamos felizes, mas inexplicavelmente se torna falso quando estamos tristes?), uma imaginação ativa (pois, como poder-se-ia crer no que não se vê sem ao menos tentar imaginar o que há além do que se vê?) e, como consequência das duas condições anteriores,  uma riqueza e um equilíbrio de emoções (pois as situações diversas – para as quais o objeto de fé é sempre verdadeiro – e as imaginações variadas – que são instigadas pela fé –, por fazerem referência a algo que transcende a realidade palpável, necessariamente despertarão sensações contraditórias, que só poderão ser equilibradas porque aquilo em que se crê é verdadeiro no encantamento tanto quanto no assombro).
Transformar passagens da Bíblia em séries de TV, por melhores que possam ser as intenções de quem o faz, pode servir de confissão de que não se está muito certo quanto à abrangência da veracidade da fé, quanto à capacidade de resposta da fé para alguém de imaginação ativa e quanto ao consolo que a fé proporciona aos mais variados estados de espírito. Pode ser uma confissão de que não se é capaz de mostrar Deus e Sua graça nas cenas banais do cotidiano, nem de responder aos questionamentos do homem comum relativos à fé, nem de reafirmar a fé em momentos de tristeza, dor ou desespero. Transformar passagens da Bíblia em séries de TV pode servir de confissão de que não se é capaz de pregar Deus, defender a doutrina de Deus e glorificar a Deus filmando uma criança soltando pipa na rua, expondo as dúvidas de um adolescente que começa a se rebelar contra todos ou representando uma mãe que perde seu filho. Todas estas cenas poderiam estar inclusas num seriado ou filme comum – no linguajar vulgar, secular –, mas, se fossem tratadas por um verdadeiro artista, elas seriam capazes de transmitir beleza, de instigar a imaginação (e, quem sabe, a fé) e de satisfazer quem as aprecia, qualquer que fosse a reação provocada nele – encantamento ou assombro.
Na Bíblia, que tem sido transformada em séries de TV pela Record, se lê, em 1 Timóteo 4.4: tudo o que Deus criou é bom [inclusive o chão e o céu que limitam o cenário em que a criança solta pipa, a adolescência que desperta no ser humano dúvidas tão desesperadoras e o filho que partiu, deixando sua mãe aflita, e o destino que o espera], e nada deve ser rejeitado [muito menos pelo artista que se propõe a retratar a realidade!] Também se lê, em 1 Coríntios 10.31: quer façais qualquer coisa [inclusive filmar a criança da pipa, o adolescente em crise ou a mãe enlutada], fazei tudo para a glória de Deus. Ainda mais revelador é o que se lê em Mateus 6.28: o próprio Jesus (sim, o autor dos milagres que serão retratados pela nova série da Record) recorrendo a uma representação secular, ao convidar Seus discípulos a perceberem uma verdade eterna simplesmente vendo os lírios do campo. Que grandes lições de arte! No cristianismo, a arte não precisa fazer apologia explícita e intencional à verdade para poder ser considerada bela; de modo inverso, ela é que deve ser bela para poder fazer apologia à verdade. Parece bom demais para ser assim, mas é exatamente assim, e os evangélicos podem acreditar: a verdade não é somente verdadeira, ela é também bela!
A Bíblia não é um roteiro de televisão
Se o que expus acima foi suficiente para demonstrar que há formas recomendáveis de arte que não narrar as histórias da Bíblia em forma de séries de televisão, resta demonstrar que narrar as histórias da Bíblia em forma de séries de televisão é não recomendável.
Não se trata de dizer que na Bíblia há menos beleza do que na cena da criança soltando pipa. É difícil negar que muitos dos mais belos textos de toda a história da humanidade estejam na Bíblia Sagrada. Mas, se a Bíblia é, de fato, como os cristãos acreditamos, sagrada – Palavra de Deus –, ela não é uma mera coletânea de histórias bonitas. Ela é uma construção sólida e harmoniosa que deve ser vista, tanto quanto possível, em sua completude. Ela é o manual que, como consequência de transformações ainda mais profundas, nos capacitará a ver beleza na cena da criança soltando pipa. As histórias de Ester, Davi, Sansão e José são, no mínimo, desinteressantes e, quase sempre, incompreensíveis para quem não acredita que há um Deus ou que esse Deus tenha se revelado em Jesus Cristo. E fazer os descrentes assistirem a essas histórias pode ser, e quase sempre é, uma colossal perda de tempo, e uma banalização de belas histórias que só fazem sentido à vista de que há um Deus e de que Ele se revelou em Jesus Cristo.
O problema começa, aliás, com a própria escolha das histórias que serão contadas na televisão. Não é difícil adivinhar os critérios utilizados pela TV Record: histórias mais ou menos famosas (com as quais o público se identificará), facilmente dramatizáveis, com forte apelo aos sentimentos que são instigados por qualquer telenovela e que sejam protagonizadas por pessoas simples que em certo ponto da vida se tornam ricas e poderosas. São critérios corriqueiros na indústria televisiva, que não têm nada de mal em si mesmos. Mas tornam-se um desastre quando são produtos de uma cultura rasa como a exposta na primeira parte deste texto e quando banalizam clássicos valiosos – e pertencentes a um contexto maior incontornável – como o são todas as histórias da Bíblia.
Levado em frente o projeto das séries, o que se tem é: cristãos que não conhecem o texto fundante de sua própria religião acessando sites de fofocas para saber o que aconteceu com os personagens bíblicos; outros cristãos, mais bem informados, analisando – como quem faz um serviço importantíssimo e inadiável (é claro que não é) – o quanto a Record alterou das histórias bíblicas originais para produzir suas séries; o público não-cristão tendo seu primeiro contato com as histórias da Bíblia a partir de um ponto de vista melodramático e corrompido em meras histórias de superação; e, para voltar à questão artística, profissionais da arte (autores, atores, produtores, diretores) se embrenhando em papéis que, muito provavelmente, em outras condições, não gostariam de fazer, e que nada de novo terá a acrescentar às suas carreiras.
A Bíblia não é, porque não pretende ser, um roteiro de televisão. Adaptá-la em séries de TV (algo que não exige muito esforço criativo) quando se pode colocar em prática o que ela ensina para, de fato, criar, fazer arte, transmitir beleza, é uma demonstração de pobreza cultural e de uma estupenda preguiça, cujo preço a cobrar é altíssimo: a banalização do sagrado e o desprezo pela arte.
Pra que serve narrar a Bíblia em forma de séries de televisão?
Por esses motivos, narrar a Bíblia em forma de séries de televisão não tem qualquer finalidade artística, e não é recomendável. Serve apenas para o comando da Record, cuja procedência ninguém desconhece, alegar que seu dinheiro é empregado em falar de Deus. Um tremendo desserviço: se a representação do sagrado não servir para revelar um mistério terrível e fascinante4, como o definiu Rudolf Otto, tem-se um sinal, para usar a linguagem fascinantemente artística e terrivelmente real da Bíblia, de que ainda não se tirou as sandálias dos pés5.

NOTAS
¹ Cultura, neste ensaio, é empregada não com o sentido de alta cultura, nem com o de erudição, mas com o de comportamento típico de determinada população – que, neste caso, é considerado manifestação duma baixa cultura e ausência de erudição.
² Evangélico, aqui, não é sinônimo de evangelical (protestante que enfatiza soteriologicamente a conversão pessoal, entre outras coisas), mas refere-se ao estereótipo brasileiro de evangélico (que, no mais das vezes, seria melhor denominado como neopentecostal, mas, a rigor, também não se restringe a esse segmento religioso).
³ Essa classificação está, grosso modo, baseada em: BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica Sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e do Belo. 1993: Editora da Unicamp.
4 A expressão original, em latim, é mysterium tremendum et fascinans e está presente em: OTTO, Rudolf. O Sagrado. 2007: Editora Sinodal, Editora Vozes.
5 Referência a Êxodo 3.5: E disse: Não te chegues para cá; tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa (versão Almeida Revista e Corrigida. 1995: Sociedade Bíblica do Brasil).