8.12.13

O amor de Cristo nos constrange




ESTUDO MINISTRADO NO DIA 8 DE DEZEMBRO DE 2013, NO CONGRESSO DE JOVENS DA IGREJA ASSEMBLEIA DE DEUS (MINISTÉRIO IPIRANGA) EM PIRASSUNUNGA - SP

2 Co 5.14–16a

Introdução: “O amor de Cristo nos constrange”, começa afirmando o texto que acabamos de ler. E, para nos aprofundarmos nele, vamos analisar o seu contexto – mas não o imediato, e sim o geral. “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Isso tem tudo a ver com “o amor de Cristo nos constrange”. Percebam: todos os credos e confissões de fé cristãos começam anunciando a realidade da Trindade. Crermos que o único Deus subsiste eternamente em três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – traz consequências seriíssimas para o restante da doutrina e para a nossa vida prática. Vamos entender isso melhor. Se o Deus único e eterno é Pai, é Filho e é Espírito Santo, essa condição não pode ter tido um começo. Assim como Deus não nasceu, não teve um começo, mas é desde a eternidade e para sempre será, não houve um momento a partir do qual Ele se tornou Pai, ou Filho, ou Espírito Santo. Muito antes da criação do mundo, do nascimento de Jesus e da descida do Espírito Santo no dia de Pentecoste, Deus já subsistia nessas três Pessoas – quando ainda não existia tempo, nem antes, nem depois. Se Deus fosse limitado a estritamente uma única Pessoa, não lhe seria possível amar ou relacionar-se! Mas, já que é triúno, Ele se relaciona desde a eternidade, e para sempre se relacionará. O Pai ama, o Filho é amado e o Espírito Santo é o amor entre os dois. A boa notícia (boa nova, evangelho) é que Deus, na pessoa do Filho, se fez homem. Estamos próximos do dia 25 de dezembro, que celebra justamente esse acontecimento. Quando você estiver comendo o frango da ceia de Natal, lembre-se do que a data representa: com a Encarnação, a relação eterna e perfeita da Trindade alcançou a História temporal, permitindo-nos ser inseridos nela. É porque Deus é uma Trindade harmoniosa que pode haver harmonia no Universo e na História. Isso não é vã filosofia, não é complicação de teólogo, não é invenção da Igreja Católica, não é uma forma entre outras de “explicar Deus”. É a profunda realidade eterna, que se anuncia na criação, na História e na Bíblia. Não podemos jamais ignorá-la com a desculpa de que é “difícil de entender”. Durante a História do cristianismo, era para a bela e harmoniosa realidade da Trindade que os cristãos olhavam quando os problemas e as dúvidas os afligiam. É pra ela que devemos olhar também, porque essa certeza está acima dos nossos sentimentos e projetos religiosos, e imune a eles.
A criação – que já anuncia a realidade da Trindade quando Deus diz “façamos o homem”, o Gênesis mostra o Espírito pairando sobre a face das águas e João afirma que sem Jesus nada do que foi feito teria sido feito – aconteceu fundamentalmente pela palavra de Deus. Ele chamava à existência o que ainda não existia. Deus cria falando. E isso confere à existência um sentido muito profundo e especial. Deus leva tão a sério as relações interpessoais que criou o mundo como que conversando. Ele falou, mas não falou egoisticamente, porque o Filho era a Palavra, o Verbo, que no grego é Logos. Os filósofos gregos antes de Jesus nascer já investigavam esse tal de Logos, porque ele seria o conjunto das condições necessárias para o surgimento do Universo e da vida. Usando esse conceito, João começa seu evangelho, de forma linda e profunda, inspirado por Deus: “No princípio era o Verbo/a Palavra/o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens; e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. Paulo dá seguimento a esse raciocínio, em Colossenses 1.16, dizendo que o mundo foi criado para Jesus. O Universo é um presente amoroso que Deus-Pai deu para Deus-Filho. O mundo, portanto, é um episódio do relacionamento eterno da Trindade. E, coroando a criação, Deus estabeleceu os seres humanos, à Sua imagem e semelhança, seres capazes de se relacionar entre si e com Ele. O que dizemos e fazemos tem consequências no mundo. Não no sentido herético (e que está na moda) de que podemos “decretar vitórias” ou “ordenar bênçãos”. Isso é bobagem. Mas no sentido de que foi Deus quem nos presenteou com o dom da comunicação, e Ele espera que o usemos para Sua glória. E Ele até nos ensina, através de Cristo e da Bíblia, a unirmos a nossa comunicação com a comunicação dEle, alcançando um significado especial, “ligando e desligando coisas na terra e no céu”, como se diz em Mateus 18.18. São os casos da oração, que deixa de ser um mero monólogo para ser um diálogo direto entre o homem e Deus; da Santa Ceia, que deixa de ser um mero partilhar de pão e vinho para ser um memorial do corpo e do sangue de Jesus que nos comunica graça; do batismo, que deixa de ser um mero mergulho para ser a demonstração de que o indivíduo está morrendo para o mundo e renascendo com Cristo etc. Ou seja, sempre que comunicamos, comunicamos algo – que pode ser muito relevante ou insignificante, bom ou ruim. Quando Deus fala, Ele comunica vida, que é sempre uma dádiva do Seu amor. E nós fomos agraciados com isso. Quando o Logos, o Filho, Cristo se faz carne, e morre em nosso lugar (porque houvéramos caído em pecado, o qual corrompera a condição original em que Deus nos criara), manifesta-se o que Paulo continua dizendo em Colossenses (e em vários outros textos de suas cartas): fomos predestinados para a adoção de filhos de Deus através do Filho Unigênito de Deus. “Deus prova Seu amor em que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores”, diz João 5.8. Em Cristo, nos tornamos co-herdeiros do mundo, co-participantes da Sua alta posição de Filho e amados por Deus como o próprio Cristo é amado. Como se lê em João 17.26, Jesus orou ao Pai dizendo: “eu lhes fiz conhecer o teu nome e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja”. “Deus é amor”, escreveu também João em sua primeira carta, e, se Deus é eterno, esse amor transcende as nossas limitações. A Israel, a nação escolhida que vivia na esperança da vinda do Messias Salvador, Deus já houvera dito, conforme Jeremias 31.3: “com amor eterno te amei”. E aos seus discípulos, Jesus, o Messias Salvador, disse, conforme João 15.12,13: “ameis uns aos outroscomo eu vos amei”. Por tudo isso, hoje temos uma missão difícil, mas que em Deus se torna possível, de cumprir: que é “conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19). É amarmos uns aos outros para que Deus esteja em nós e em nós seja perfeito o Seu amor (1 Jo 4.12).
Talvez só agora este estudo se torne interessante pra você, mas era necessário fazer essa longa introdução. Porque, irmãos, que diferença faz saber que, independente dos nossos problemas e dúvidas, há no Céu uma relação eterna de amor na Trindade! E que o mundo em que vivemos foi criado num episódio dessa relação eterna de amor! E que essa relação eterna veio até nós em Cristo: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito” (Jo 3.16)! E que o amor entre as Pessoas da Trindade, o amor do Deus triúno por nós e o nosso amor uns pelos outros (inclusive o amor romântico de um casal) não podem ser contraditórios! É, ao mesmo tempo, lindo e desesperador, porque definitivamente o pecado nos torna incapazes de amar como Deus ama. Porque, como o próprio Cristo diz, em João 15.13, “ninguém tem maior amor do que o de dar a sua vida por outrem”. E, por isso, falar desse amor não é como falar do amor das novelas e dos filmes, que é “fofo” e “bonitinho”. É falar de um amor que fez Deus sangrar e morrer. Falar desse amor é jogar na nossa cara que nós não merecemos nada do que temos e nem gratos por isso somos, porque, se fôssemos, amaríamos como fomos e somos amados por Deus. Esse amor é tão grande que causa assombro e desconforto. Quando Moisés viu uma mínima fração dele, seu rosto resplandeceu, de modo que teve de tampá-lo com um pano, pois ninguém conseguia olhar para aquele brilho. Quando Pedro, Tiago e João acordaram e viram esse amor na fala de Deus-Pai, vindo de uma nuvem, quando Cristo estava transfigurado, com o rosto resplandecente como o sol e as vestes brancas como a luz, “Este é o meu Filho amado, em quem tenho prazer; escutai-o”, desistiram da ideia idólatra que eles tiveram no momento de assombro de construir templos para Moisés e Elias, que apareceram ao lado de Jesus, caíram como mortos e tiveram grande medo.
E é por isso que devemos tratar deste assunto do ponto de vista da Trindade. Costumamos tratá-lo do ponto de vista do inferno. Aliás, cometemos esse erro em quase todos os assuntos. Procuramos formular listas do que se pode e o que não se pode fazer caso não queiramos ir para o inferno e, por medo de ir, obedecemos religiosamente. Mas essa atitude é exatamente a que o evangelho não deve produzir em nós. Devemos entender a vontade de Deus expressa em Sua Palavra, aceitá-la e guardá-la, e então a graça divina (que é a dádiva, o presente do amor) nos capacitará a praticá-la. Vislumbrar o amor de Deus é assombrador, mas esse assombro é divino, é celestial, é bom. E nos leva a confiar que, apesar da nossa incapacidade de obedecer, “o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado”, conforme Romanos 5.5. Por isso Agostinho chamava a terceira Pessoa da Trindade deVinculum Caritatem, ou Vinculus Amoris – ou seja, vínculo do amor, a verdadeira comunhão entre o Pai e o Filho. Essa comunhão pode ser verdadeira em nós também. Como lembra o teólogo Guilherme de Carvalho, “o centro da teologia cristã não é o inferno, é a trindade”. Se fomos feitos filhos de Deus, não devemos ser constrangidos pelo medo de ir para o inferno, mas pelo vislumbre do infinito amor do Pai. “O amor de Cristo nos constrange”.
Há um artista cristão contemporâneo que tem tratado brilhantemente destes temas: o cineasta americano Terrence Malick. Em 2010, seu filme “A Árvore da Vida” mostrou com beleza extraordinária como é coerente e digna de aceitação a explicação cristã para a vida, e como são fortes suas consequências práticas. Citando passagens da Bíblia e da teologia cristã, o filme nos faz lembrar da presença que emana das águas – como no Gênesis, quando a terra era sem forma e vazia – e que no hebraico é chamada ruach. Ele lembra que a ruachconstantemente convida-nos a percebê-la. E neste ano o cineasta lançou o filme “Amor Pleno”, que é uma espécie de continuação do anterior, retratando a busca pelo sentido do amor nas relações interpessoais. Seu título original, em inglês, é “To the Wonder”, que ao pé da letra seria algo como “para a maravilha” ou “rumo à maravilha”. Ele conta paralelamente as histórias de um casal de namorados que tem dificuldades em manter a fidelidade e de um padre que se sente desamparado por Deus ao ver tanta miséria na comunidade em que ele presta assistência social. Como explica o filósofo cristão Martim Vasques da Cunha, “o que está em jogo no mundo em que vivemos é a capacidade de percebermos o kabod, termo em hebraico para glória, que provoca justamente o tal maravilhamento, o the wonder para o qual o filme é dedicado e, mais, para o qual os personagens querem se dirigir em suas existências miseráveis”. Sim, porque as relações interpessoais quase sempre se desgastam com a rotina, pervertem-se com o pecado e tornam-se entediantes. E, por mais que já tenhamos sido convencidos de que a resposta para os enigmas da existência está em Deus, a nossa condição pecaminosa sempre nos impede de entendermos e acreditarmos nisso totalmente. Nesse sentido, como continua Martim, a nós parece que “Deus nunca será uma solução: é mais um abismo que clama por mais abismos; mas, ao mesmo tempo, temos de louvá-lo constantemente porque Ele nos deu uma beleza delicada que só o mundo que nos rodeia faz questão de nos mostrar”. Como acabamos de ver, essa beleza delicada só pode existir porque Deus é uma Trindade harmoniosa; porque o mundo foi criado para Jesus, e Jesus morreu por nós, e agora vivendo nEle tornamo-nos co-herdeiros da criação de Deus. É só quando formos constrangidos pelo amor de Cristo que alcançaremos o “the wonder”, a maravilha, o amor pleno, que tem a mesma origem da árvore da vida.
Sabendo que Cristo é Senhor de tudo, porque o Pai lhe deu a criação por herança, e que fomos feitos co-herdeiros dEle, vamos analisar as consequências de Seu amor constrangedor sobre o nosso amor em três aspectos. O amor de Cristo nos constrange:

I.              No amor, independente do namoro: “todas as coisas sejam feitas com amor” (1 Co 16.14)
Uma unanimidade entre os pensadores cristãos sobre o amor pode ser observada nas três frases seguintes: “O amor que não leva o homem para além de si mesmo não é amor” (Oswald Chambers). “Amor significa amar o inamável ou não é uma virtude em absoluto” (G. K. Chesterton). “O amor tende sempre para as alturas e não se deixa prender pelas coisas inferiores” (Tomás de Kempis). Por que a unanimidade? Ora, porque, de todos os atos e palavras humanos que têm consequências (como vimos), que podem comunicar amor, o mais significativo foi o sacrifício voluntário do próprio Deus feito homem. Logo, só faz sentido falar em amor na medida em que o sacrifício de Cristo está no centro. E, assim, amar a Deus sobre todas as coisas é uma necessidade lógica para se amar de qualquer outra forma. O amor só é a virtude mais admirada por toda a humanidade porque ele não depende dos nossos preconceitos, ignorância e orgulho para ser definido, mas é definido por algo (no caso, Alguém) que está além da nossa inconstância: Deus. As expressões “ir além de si mesmo”, “amar o que não se vê” e “amar até às alturas”, apreendidas daquelas três frases, têm seu ápice... em amar a Deus! Por isso, a relação do homem com Deus precisa ser de amor. Só fé não basta, só esperança não basta. “Agora permanecem a fé, a esperança e o amor. O maior deles é o amor” (1 Co 13.13). Isso é o que leva Joseph Ratzinger, grande teólogo, a dizer: “Uma fé que não seja amor não é uma fé verdadeiramente cristã, não passa de uma fé aparente”. E, em outro momento, ele diz: “Se todo o amor aspira à eternidade, o amor de Deus não só aspira a ela, como cria e é a eternidade”. Ora, se temos fé e esperança na eternidade, consequentemente teremos amor. Mas isso não pode ser afirmado sem que antes nos lembremos do esclarecimento de Dietrich Bonhoeffer: “Ninguém conhece a Deus a não ser que Deus se lhe revele. Consequentemente, ninguém sabe o que é amor, a não ser na autorrevelação de Deus. Assim, amor é revelação de Deus. Revelação de Deus, no entanto, é Jesus Cristo. O amor tem sua origem em Deus, não em nós; o amor é postura divina, não comportamento humano”. O amor só fará sentido e só terá poder quando nos rendermos a essa verdade. Não há amor genuíno em nós mesmos. Não adianta procurar. Talvez descubramos algumas definições para a palavra amor, mas isso não passará de vã sabedoria. O amor é uma postura divina. Talvez fosse isso o que passava pela cabeça de Paulo quando ele escreveu, em 1 Coríntios 8.1b-3: “O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. Quem pensa conhecer alguma coisa ainda não conhece como deveria. Mas quem ama a Deus, este é conhecido por Deus”. Amar a Deus implica ter sabedoria, conhecimento. Ser conhecido de Deus implica ser amado.
            Mas a necessidade lógica não significa que nós naturalmente a sigamos. Amar, amar de verdade, é um mandamento: “Amarás, pois, ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças. Semelhantemente, amarás o teu próximo como a ti mesmo” (cf. Mc 12.29-31). O mandamento se estende a toda a Igreja de Cristo, e o nosso próximo é todo e qualquer ser humano. Como explica o pastor e filósofo Jonas Madureira, “o ‘amar’ da igreja não é resultado de uma tendência interna que supostamente acompanharia a essência da igreja. Pelo contrário, o ‘amar’ da igreja deve ser resultado de sua obediência ao chamado divino. Ou seja, é Deus quem determina o modo como a igreja deve amar!” O amor de Deus foi perfeitamente expresso em entregar Seu único filho para morrer em nosso lugar. Segundo o grande filósofo cristão Soren Kierkegaard, amor é “justiça equalizadora eterna”, porque é, como o Evangelho diz, “o cumprimento da lei”. Foi o amor de Deus que tornou possível a nossa justificação e, uma vez justificados, somos feitos filhos dEle. Isso nos faz lembrar de Provérbios 10.12, onde se lê que “o ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões”. Por quê? Porque, como está escrito em 1 Coríntios 13, “o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Se isso soa ingênuo à nossa sociedade, o problema está nela (a sociedade), e não na definição bíblica de amor. O amor nos faz um; logo, como afirma Kierkegaard, “ao que ama verdadeiramente, ao que crê em tudo, não se pode enganar, pois enganá-lo é enganar a si próprio”.
            É interessante que, visto deste modo, a oposição que normalmente se faz hoje entre “amar livremente x fazer o que é certo” fica simplesmente ridícula. A oposição verdadeira é entre “amar x fazer o que é errado”, porque não há bem fora do amor, nem há mal nele. Diz o escritor protestante Os Guinness: “a perspectiva cristã considera o impulso do amor como estando exatamente no centro de todas as virtudes e vícios. Enquanto as virtudes se derivam da disposição apropriada do amor, os vícios se derivam de um amor doentio”. Wolfhart Pannenberg, grande teólogo, também se propôs a fazer essa análise. Ele escreve: “Pode o amor ser pecaminoso? Toda a tradição doutrinária cristã ensina que há uma coisa chamada amor invertido, pervertido. Os seres humanos são criados para o amor, como criaturas do Deus que é amor. Ainda assim, essa ordenação divina é corrompida sempre que as pessoas se afastam de Deus ou amam outras coisas mais do que a Deus. Jesus disse: ‘Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim...’ (Mt 10.37)”. Isso se encaixa perfeitamente com outro ensino de Jesus, o de que, “por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará” (Mt 24.12). Sobre isso, C. S. Lewis ironiza: “Na verdade, queremos mais um avô do que um pai no Céu — uma benevolência senil, que, como dizem, ‘gosta de ver gente jovem se divertindo’, e cujo plano para o universo seja simplesmente que alguém possa dizer, com sinceridade, ao final de cada dia, que ‘todos passaram por bons momentos’”. Mas, ainda bem!, o nosso Deus é Pai, e a única relação do amor com o pecado é que, toda vez em que falamos de amor, devemos lembrar que foi por amor de Deus (a fonte de todo amor) que pudemos ser justificados dos nossos pecados. Como consequência de que o amor de Deus tenha pagado a nossa dívida com Ele mesmo, a única dívida que ainda temos nesta vida é de amor. Isso é o que diz Romanos 13.8: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei”. E isso quebra mais uma falsa oposição, entre “ser livre em Cristo x ter obrigações morais”. A verdade é que, sim, Cristo cumpriu a Lei e agora vivemos sob a Graça, mas o cumprimento da lei é o amor, e dele, portanto, nós nunca iremos nos livrar! E que bom que é assim! Em tudo o que fizermos, devemos deixar a marca do amor. Em 1 Pedro 1.22, o apóstolo não economiza ênfase ao dizer: “amai-vosardentemente [ou, como diz outra tradução, entranhavelmente] uns aos outros, com um coração puro”. Sim, irmãos, se fomos feitos filhos de Deus em Cristo Jesus e recebemos do Espírito Santo este testemunho, deve haver, como já disse a escritora presbiteriana Norma Braga, “uma continuidade tão evidente entre as ações de Deus e seus efeitos em nós que ‘eu te amo’ se torna ‘eu te amo com o amor de Deus’ e ‘eu não te amo mais’ é uma total impossibilidade”.
Para encerrar este primeiro tópico, volto ao filme “Amor Pleno”, e repito o trecho da pregação ministrada por um de seus personagens em crise. Ele diz: “O homem está revoltado contra Deus. O profeta Oseias viu, no colapso do seu casamento, a infidelidade espiritual do seu povo. Nesse casamento desfeito, vemos o padrão do nosso mundo. Desejamos viver na segurança das leis. Tememos escolher. Jesus insiste na escolha. A única coisa que Ele condena inteiramente é evitar a escolha. Escolher é comprometer-se, e comprometer-se é correr o risco, é correr o risco de fracassar, o risco de pecar, o risco de trair. Mas Jesus pode lidar com todos eles. O perdão, Ele nunca nos nega. O homem que comete um erro pode se arrepender, mas o homem que hesita, que não faz nada, que enterra seu talento na terra, com esse nada se pode fazer”. Se fomos feitos filhos de Deus, devemos escolher amar. Aqui chegamos mais perto do assunto “amor romântico”...
Em segundo lugar, o amor de Cristo nos constrange...

II.            No amor e na procura por alguém a amar: “o amor encoberto é pior do que a repreensão aberta” (Pv 27.5)
A primeira coisa a se dizer sobre o amor romântico, o amor entre um homem e uma mulher, é que ele é bom e agradável diante de Deus – e, claro, para os próprios amantes. O provérbio bíblico citado encoraja-nos a assumirmos esse amor. Mas é claro que isso não é tudo o que a Bíblia diz sobre o amor romântico. Tudo de que tratamos até aqui não foi tratado em vão – é indispensável mantê-lo em mente para entendermos o que virá a partir de agora. A busca por um(a) companheiro(a) não é um momento à parte da vida em que nos esquecemos de tudo o mais e nos concentramos apenas na busca em si. Aliás, nada na vida é assim. Não deve ser. As verdades do evangelho são válidas e eficazes para todas as situações que vivemos. Em primeiro lugar, portanto, buscar um(a) companheiro(a) não significa deixar temporariamente de amar a Deus sobre todas as coisas até alcançar o objetivo, e depois voltar ao normal. Só encontraremos uma boa pessoa se estivermos buscando a Deus, por mais estranho que isso pareça. E com isso não quero dizer que devemos apenas orar e esperar que Deus faça surgir na nossa frente, de repente, a pessoa ideal. Isso seria patético. Eu quero dizer o contrário disso: que buscar um(a) companheiro(a) deve ser um processo muito mais natural do que a gente pensa. Amar a Deus sobre tudo implica viver para Sua glória. A vida cristã pode e deve ser bem abrangente. Em 1 Coríntios 10.31, Paulo diz: “seja pra comer, pra beber ou pra fazer qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não é só na igreja que o nosso objetivo deve ser glorificar a Deus, mas em tudo – até pra pegar uma agulha que cai no chão. Se não for em tudo, não será em nada. Tudo que fazemos de bom grado, por amor, com beleza, glorifica a Deus. Como diz o texto que dá base a este estudo, Cristo “morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”. E se procurarmos fazer isso cotidianamente, muitas coisas acontecerão com maior naturalidade – talvez, inclusive encontrar um(a) namorado(a). E, em segundo lugar, a crença de que cada um de nós tem uma “alma gêmea” que, no tempo determinado, cruzará o nosso caminho – mesmo que o nome mude pra “prometido(a)” ou coisa do tipo – é espiritismo, não é cristianismo. Se amar é uma escolha que fazemos em obediência a um mandamento, é um ato de liberdade, e, mais uma vez, é preciso encarar esse processo de busca com maior naturalidade, sem cabalismo esotérico. É realmente bonito dizer: “se o meu namorado não existisse, eu pediria a Deus que o inventasse” ou “depois que conheci minha namorada, tive a certeza de que nascemos um para o outro e que a minha vida só começou de verdade quando eu a conheci”; isso tem até valor poético, mas não se pode levá-lo ao pé da letra, porque no fundo todo mundo sabe que cada um escolheu amar quem ama, já que cupidos não existem. É claro que Deus tem controle sobre as nossas vidas e Seus planos são perfeitos, e que todo aquele que é amado é, na nossa realidade, insubstituível (se não fosse assim, o casamento não faria sentido); mas, pensando friamente, a pessoa por quem você nutre um amor romântico poderia (em termos lógicos) simplesmente não existir, e neste caso você nem saberia disso. Em outras palavras: assim como o maior exemplo de amor, a morte de Cristo, aconteceu nesta nossa realidade, nós decidimos amar outra pessoa nestarealidade, e isso é legitimado diante de Deus no casamento; mas, como ensinou Jesus, no céu seremos como os anjos, e anjos não se casam (cf. Mt 22.30). Portanto, pode não ser verdade que, mesmo que você tivesse nascido do outro lado do mundo, a sua vida só estaria completa ao conhecer a pessoa que hoje você ama. Acreditar que isso seria necessário é idolatria. O único ser necessário em todos os mundos possíveis é Deus. A atitude mais correta é agradecer a Ele por ter te permitido conhecer uma boa pessoa, que te completa porque Ele criou, e saber que, a partir do casamento, você será responsável por cuidar dela, porque você e ela serão apenas um. Desculpem-me se eu decepcionei alguém, mas é que os contos de fadas criaram em nossa mente uma falsa imagem do que seja o amor romântico. Talvez isso demonstre a nossa falta de compreensão do verdadeiro sentido do amor. Lembre-se de tudo o que estudamos até agora. O amor é uma atitude divina que existe desde a eternidade e para sempre existirá. Foi num ato de amor que Deus criou o mundo – e o fez conversando, i.e., se relacionando. O que falamos e fazemos tem consequências, e o mandamento de Deus é que tudo o que fizermos e dissermos tenha por consequência o amor, que vem dEle. Amar, portanto, é uma decisão (que só somos capazes de tomar pela graça de Deus, é verdade) e é, em última instância, uma promessa – normalmente, dirigida à nossa própria consciência, mas, se tratando do amor romântico, a outro ser humano, que corresponderá ou não ao tipo de amor que lhe dispensamos. Isso não é menos belo do que a falsa imagem romântica dos contos de fadas. Pelo contrário: é infinitamente mais belo! Deus criou o mundo num ato de amor, falando, conversando, prometendo, e a sua relação com o(a) seu(sua) namorado(a), quando vocês se casarem, também se baseará numa promessa. Que honra! O escritor cristão G. K. Chesterton, já citado neste estudo, uma vez disse: “os apaixonados têm a tendência natural de fazer promessas um ao outro. As canções de amor do mundo inteiro estão repletas de juras de fidelidade eterna”. Ao que C. S. Lewis, outro grande escritor cristão, também já citado, completa: “A lei cristã não exige do amor algo que é alheio à sua natureza: exige apenas que os amantes levem a sério algo que a própria paixão os impele a fazer. E é evidente que a promessa de ser fiel para sempre, que fiz quando estava apaixonado e porque o estava, deve ser cumprida mesmo que deixe de estar. A promessa diz respeito a ações, a coisas que posso fazer: ninguém pode fazer a promessa de ter um determinado sentimento para sempre. Seria o mesmo que prometer nunca mais ter dor de cabeça ou nunca mais ter fome”. Vocês devem ter percebido que aqui também se diz que a paixão (aquele deslumbramento da novidade, que provoca desejo e abala todo o corpo) não é eterna como o amor. Desculpem-me se isso foi motivo para nova decepção, mas continuem ouvindo o que escreveu Lewis: “o que quer que as pessoas digam, a verdade é que o estado de paixão amorosa normalmente não dura. Se o velho final dos contos de fadas: ‘E viveram felizes para sempre’, quisesse dizer que ‘pelos cinquenta anos seguintes sentiram-se atraídos um pelo outro como no dia anterior ao casamento’, estaria se referindo a algo que não acontece na realidade, que não pode acontecer e que, mesmo que pudesse, seria pouquíssimo recomendável. Quem conseguiria viver nesse estado de excitação mesmo por cinco anos? Que seria do trabalho, do apetite, do sono, das amizades? É claro, porém, que o fim da paixão amorosa não significa o fim do amor. O amor nesse segundo sentido - distinto da ‘paixão amorosa’ - não é um mero sentimento. É uma unidade profunda, mantida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo hábito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dEle recebem. Eles podem fruir desse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que se desgostam. (...) As pessoas tiram dos livros a ideia de que, se você casou com a pessoa certa, viverá ‘apaixonado’ para sempre. Como resultado, quando se dão conta de que não é isso o que ocorre, chegam à conclusão de que cometeram um erro, o que lhes daria o direito de mudar - não percebem que, da mesma forma que a antiga paixão se desvaneceu, a nova também se desvanecerá (...) Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer”. Voltando ao Chesterton, há outra frase dele que diz: “O amor não é cego; é justamente o contrário. O amor está vinculado, e quanto mais vinculado está, menos cego é”. E isso é lindo!
Como procurar um(a) companheiro(a), então? Amando a Deus sobre todas as coisas! Porque, estando ligados a Cristo, nos atrairemos por pessoas que também estejam ligadas a Ele. Como o pastor Wilson Porte Jr. explica: “A pessoa que está ligada a Cristo é aquela que está crucificada com Cristo, que morreu para este mundo e que vive para a glória de Deus. É uma pessoa que traz você para mais perto de Deus”. Como diz outro versículo do texto-base deste estudo, “daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne”. Isso não significa necessariamente não levar nem um pouco em conta o que a outra pessoa demonstra exteriormente. Isso também é importante. Mas só é importante na medida em que não corrompe o interior e, melhor ainda, em que é uma expressãodo interior – quando a pessoa se dedica integralmente a amar a Deus. É curioso como até as relações de paixão podem ser uma válvula de escape para o nosso egoísmo. Isso acontece quando procuramos na outra pessoa somente a realização dos nossos desejos egoístas. O que devemos procurar, na verdade, é uma pessoa que agrada a Deus, e que nos completará, principalmente, nos nossos defeitos. Porque, voltando a Wilson, ele ainda diz: “Para os cristãos, namoro não é curtição, mas preparação. Cristãos não namoram para se conhecer. Cristãos namoram porque já se conhecem o suficiente para caminhar um tempo, rumo ao matrimônio”. Aprofundaremos isso no próximo e último tópico.
Apenas acrescento que entender essas coisas talvez seja um dos sentidos do “amor que cresce em conhecimento”, de que a Bíblia fala em Filipenses 1.9,10. O pastor neocalvinista Joshua Harris, que trata especialmente de assuntos como o amor romântico, apelidou esse amor de “amor inteligente”. Que tal praticá-lo? Creio que, na nossa sociedade embriagada por falsas noções do que seja o amor, praticar um amor tão sóbrio como o “inteligente” (e o que mais poderíamos esperar da Palavra do Deus que é a fonte de todo amor verdadeiro?), seria um testemunho impactante. Assim como não deve ter sido por acaso que Paulo escreveu o famoso “capítulo do amor” (1 Coríntios 13) aos cristãos da cidade de Corinto, que abrigava o templo de Afrodite, a deusa do amor segundo a mitologia grega. A nossa sociedade narcísica (ou seja, apaixonada por si mesma) apela àquele cabalismo esotérico que mencionei, quando fala em amor, porque acredita que anossa existência (e não a de Deus) é necessária (e prioritária) – ou seja, segundo essa visão, nós somos os deuses. Não devemos nos conformar com ela. E o melhor caminho para transformá-la é viver na prática o contrário do que ela diz. Cultivando um amor inteligente, que coloca Deus sobre todas as coisas. Se é Afrodite quem tem reinado em nossa sociedade, vamos viver o Reino de Cristo em meio a ela!
E novamente nos dirigimos ao “Amor Pleno. Noutro momento do filme, o mesmo personagem citado anteriormente diz, poeticamente: “Acordo o amor. A presença divina adormecida em cada homem, em cada mulher. Vocês dizem: ‘Cristo disse isso, Cristo disse aquilo’. O que vocês dizem? E o que vocês dizem vem de dentro de Deus? Respondem que é de Deus em cada homem, em cada mulher. Conheçam-se uns aos outros nesse amor. Isso nunca muda”.
            E, em terceiro lugar, o amor de Cristo nos constrange...

III.           Na paixão, que não pode prescindir do amor e deve nos levar a algo maior: “se não tivesse amor, nada disso [nem a paixão] seria aproveitável” (1 Co 13.3)
No tópico anterior, traçamos algumas considerações sobre a busca pela paixão e desde já ficou claro que paixão é diferente de amor, especialmente porque ela acaba, e ele, não. Fundamentalmente, como já disse o teólogo Karl Barth, “o amor não é Eros, que sempre cobiça, mas Ágape, que jamais acabará”. E mais: “A novidade, a originalidade do amor é ele não participar do círculo vicioso que vai do mal ao mal”. Por isso, agora aplicamos o “nada disso” do versículo 3 do “capítulo do amor” a, inclusive, a paixão: sem amor, a paixão é imprestável. E para onde o amor (inteligente) levará um namoro, então?
Antes de prosseguir, vale lembrar que a paixão não é má em si mesma. Como diz o pastor John Piper, “o valor moral de um ato de amor não é destruído quando somos motivados a fazê-lo por vermos o nosso próprio prazer nisso. Se assim fosse, um homem mau, que odiasse a expectativa de amar, poderia se dedicar ao amor puro já que ele não tiraria nenhum proveito disso, enquanto um homem bom, que tem prazer na expectativa de amar, não poderia amar já que ele teria a ‘recompensa’ do prazer nisso, e, consequentemente, destruiria tudo”. O problema está quando buscamosapenas o nosso prazer, quando passamos a idolatrar o prazer em si, como se ele fosse eterno, em vez de simplesmente amar.
Talvez o maior choque que levamos ao ouvir dizer que um casamento é, antes de tudo, uma promessa, e que a paixão sempre acaba, embora o amor deva continuar, além da falsa impressão de que promessas não são tão interessantes quanto impulsos incontroláveis (na verdade, são muito mais!), seja o questionamento: “Mas amor sem paixão não é entediante?” Bem, nada mais falso. A paixão é um impulso incontrolável, mas impulsos incontroláveis até os animais têm. Uma das coisas que nos fazem humanos (à imagem de Deus) é justamente termos liberdade, podermos escolher, podermos cumprir promessas. Não há nada mais empolgante do que isso. Entediante seria não termos liberdade de escolha, sermos escravos de impulsos animais. No filme “Amor Pleno”, que tem nos acompanhado neste estudo, as crises dos personagens são uma espécie de “noite escura da alma”, em que o casal deve se esforçar para continuar amando, e o padre, para continuar cuidando dos pobres, mesmo quando falta paixão ou ânimo. Isso é como tatear no escuro, mas não é totalmente ruim. Como escreveu o filósofo Luiz Felipe Pondé, ao resenhar o filme: “Assim como é difícil para nós mantermos o amor por Deus, é difícil sustentarmos o amor entre um homem e uma mulher. Nossa natureza ‘caída’ não suporta o ‘peso’ do amor. Este ‘peso’ assume várias formas, entre elas, o compromisso com ele, principalmente no vazio que o cotidiano instaura em nosso coração e corpo sedentos. Nossa natureza tende ‘para baixo’, para o tédio e a insatisfação, como diz a mulher no filme quando se refere às duas mulheres que existem nela: uma tende para o amor, para o alto, a outra para baixo, para a terra.No cristianismo, amor não é mero afeto, é substância que nos faz existir, porque, longe do amor, somos todos doentes, umas criaturas da noite que vagam numa escuridão sem fim. No escuro, não é só o outro que desaparece, mas nós também”. E, eu acrescento: desaparecermos é o que mais queremos, não é?! Afinal, como diz o texto-base deste estudo, “todos morreram” em Cristo e agora vivem para Ele! É Ele quem deve aparecer! E quando aparece, há amor, porque Ele é amor. “No cristianismo, amor não é mero afeto, é substância que nos faz existir”.
E, assim como existimos porque Deus quer e porque, num ato de amor, certa vez Ele nos trouxe à existência com a Sua palavra, o amor que nos faz existir é formalizado diante dos homens e legitimado diante de Deus quando, numa palavra, fazemos a promessa de auxiliarmos um ao outro e sermos fiéis até a morte. Fica clara, assim, a beleza do casamento? Se fica, ele deve ser desejado por nós. E assim o namoro deve ser encarado pelo cristão: como uma preparação para o casamento. Não, não se trata de comprar casa e móveis, agendar a cerimônia de casamento e fazer planos detalhados para a futura família. Isso deve acontecer no noivado. Mas vale lembrar que o namoro é uma invenção recente na História. No tempo em que a Bíblia foi escrita, por exemplo, ele não existia – existia apenas o noivado e o casamento. Isso não quer dizer que namorar seja errado, é claro. Mas é proveitoso atentar para o que diz, por exemplo, o teólogo assembleiano Ciro Sanches Zibordi, em seu livro “Adolescentes S/A”: “Não defendo o namoro de antigamente, pois vivemos uma outra realidade, em que os valores mudaram, e algumas adaptações são inevitáveis. [Mas] como o jovem cristão deve encarar o namoro? Quando maduro, preparado para um relacionamento sério, deve encará-lo com responsabilidade, observando que a palavra ‘amor’ não está contida em ‘namoro’ por acaso”. Isso nos dá uma nova dica: que não tenhamos pressa em namorar, nem nos preocupemos se demorarmos a encontrar alguém que nos pareça ideal para um relacionamento. O período de solteiro(a) pode ser muito proveitoso na vida de um jovem! Inclusive para que ele se prepare a ser um(a) bom(a) namorado(a) e marido/esposa.
Norma Braga, escritora que já citei, é uma pesquisadora do fenômeno cultural do “politicamente correto”, que, segundo ela, nada mais é que uma espécie de caricatura secular do cristianismo, um moralismo moderno que imita o amor cristão. Partindo desta análise, e de outras que já fizemos aqui, até que ponto o namoro moderno não é uma versão politicamente correta e secular do casamento? Afinal, mesmo no namoro, por mais que se fale em “amor livre”, é muito comum ver um namorado que se acha responsável por ser “cabeça” de sua namorada, o que ele deveria ser, segundo a Bíblia ensina, apenas quando ela se tornar a sua esposa. Essa é uma visão equivocada do que deve ser o namoro. Todo relacionamento amoroso entre cristãos deve visar o casamento, que é uma instituição sagrada, inclusive respeitando o momento certo para começar a agir como marido ou como esposa. Quem não o respeita está deixando de amar a Deus sobre todas as coisas. E, aceitando que cada chefe de família é o pastor de seu lar, vale lembrarmos a pergunta que Jesus fez a Pedro, em João 21.16, antes de lhe dizer “Apascenta minhas ovelhas”. Ele perguntou por três vezes (referindo-se, no original grego, a mais de um tipo de amor): “Tu me amas?” Segundo Donald Stamps, comentarista da Bíblia de Estudo Pentecostal, essa foi “a pergunta mais importante que Pedro já teve de responder”. Da mesma forma, a pergunta mais importante a fazer (mesmo que silenciosamente) a um(a) possível namorado(a) é: “Você ama a Deus?” E, se ele(a) amar, vai ser um(a) bom(a) namorado(a), que espera o tempo certo para ser marido/esposa, e deseja isso. Como observa o filósofo cristão Gustave Thibon: “coisa curiosa, sempre notei que, quanto mais um homem proclama os direitos absolutos do amor, menos o amor opera nele milagres, e mais provável é que os seus amores acabem mal. É precisamente quando o amor julga ter todos os direitos que ele tem menos poder. E isto deve incitar-nos a procurar o que se esconde, na maioria dos casos, sob o belo nome de amor. (...) aquele que se casa sem consultar outra coisa em si que não seja a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida, como diz Paulo, no dia em que a lassidão ou uma nova paixão o invadirem, estará fortemente ameaçado, uma vez mais, a escutar ‘a voz do coração’ e a exercer de novo ‘o seu direito ao amor’”. Novamente: que não pareça entediante se opor a esses maus procedimentos. Não é interessante que a morte de Jesus, expressão máxima do amor, tenha acontecido para cumprir uma promessa, uma palavra, uma lei? Então, não é uma honra que o amor humano possa ser sacralizado também numa palavra, fazendo-se uma promessa, obedecendo à lei divina e superando os impulsos humanos enganosos? Sim, é uma grande e bela honra, que comprova (e não nega) que “contra o amor não há lei”, como se diz em Gálatas 5.23.
Na Paixão de Cristo, o que não faltou foi amor. Ela foi o prelúdio do maior ato de amor que o Universo já sediou. Do mesmo modo, que nas nossas paixões não falte amor, pra que, quando elas acabarem, ele permaneça. Nos relacionamentos a dois valem os mesmos princípios que norteiam o nosso amor ao próximo. Inclusive o de Gálatas 5.2, que diz: “andai em amor como Cristo vos amou e se entregou em oferta”. No casamento, e só no casamento, isso ganha um significado muito específico. Como continua Thibon, lindamente (a citação é longa, mas vale a atenção): "Não concebo um casamento feliz sem sacrifício mútuo. (...) Não ‘arranjamos’ uma esposa, damo-nos a ela [e vice-versa]. Casar é talvez o modo mais direto e mais exclusivo de deixar de pertencer-se. (...) O segredo da felicidade conjugal está em amar esta dependência. O ser que vive ao nosso lado, devemos amá-lo menos na medida do que nos dá que na medida do que nos custa. (...) Já não sabemos ser fiéis porque não sabemos sacrificar-nos. Tantos homens há que só amam pelo prazer imediato… Condenam-se, deste modo, a conhecer apenas a superfície do objeto amado, e, quando esta superfície os desilude, a trocá-lo por uma outra superfície, e assim por diante. (...) aquele que quer saborear a profundidade de uma criatura deve saber sacrificar-se por essa criatura; o seu amor deve superar as decepções, superar o hábito; mais ainda, deve alimentar-se dessas decepções e desse hábito. O amor humano tem a sua aridez e as suas noites; também ele não encontra o seu centro definitivo senão para além da prova sofrida e vencida. Mas, uma vez chegado a esse ponto, ele saboreará a riqueza, a pureza eterna da criatura pela qual se imolou. Porque, se a criatura é tremendamente limitada em superfície, é infinita em profundidade. É profunda até Deus. (...) [Certa pensadora] disse que ‘se Deus só estivesse lá em cima, não estaria em parte alguma’. O casamento é, por excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de mais comum e de mais banal. Sacrificar-se a uma criatura, amá-la apesar do seu nada, por causa do seu nada, amá-la com um amor mais forte e mais puro que o desejo de felicidade, tudo isto só é possível se o amor humano se conjuga e se amalgama com o amor eterno. Não convém divinizar o ser amado. Esta idolatria conduz, a breve prazo, à indiferença ou à repulsa. O autêntico amor nupcial acolhe o ser amado não como um Deus, mas como um dom de Deus em que todo o divino está escondido. Não o confunde nunca com Deus e não o separa nunca de Deus. ‘Ela olhava para o alto e eu olhava nela’, escreve Dante falando de Beatriz [sua amada]. Nisso reside o supremo segredo do amor humano; beber a pureza divina nos olhares, na alma, no dom de uma criatura. ‘Sentir como o ser sagrado freme no ser querido’, assim definia magnificamente Vitor Hugo seu grande amor. Num tal grau de amor, [neste sentido] o ser amado é verdadeiramente insubstituível: dado por Deus, ele é único como Deus é único; um mistério inesgotável habita nele. (...) A vida dos dois desenvolve-se e torna-se infinita numa oração única”. Isso não é lindo por acaso. É lindo porque foi Deus quem criou, por amor. E é para isso que os namorados cristãos devem se preparar.
Uma das cenas mais importantes do filme “Amor Pleno” é aquela em que o mesmo personagem dos outros trechos recitados diz: “O amor não é apenas um sentimento. O amor é um dever: você deve amar. O amor é um comando. E você diz: ‘Não posso comandar minhas emoções. Elas vêm e vão como nuvens’. A isso, Cristo diz: ‘Você deve amar, quer você goste, quer não’. Você teme que seu amor tenha morrido. Talvez ele esteja esperando ser transformado em algo maior”.

Conclusão: Há amor na Trindade, e isso nos é confortante. Cristo nos amou, e isso é constrangedor. Ele nos amou tanto que nos é desesperadoramente necessário O amarmos também. O amor de Cristo nos constrange, movendo-nos em tudo o que fazemos, deixando a sua marca através de nós. Estamos mortos e vivemos para Ele. A ninguém mais conhecemos segundo a carne. E nas nossas relações românticas não é diferente: é o amor de Cristo que nos move, desde a procura por um(a) companheiro(a) até o namoro, que deve ser uma preparação para o sagrado casamento. Deus não é um incômodo aos nossos relacionamentos, mas é razão de eles, e nós mesmos, existirmos. Não desprezamos a voz da ruach, que paira sobre as águas. Estamos em busca dokabod, da glória, da maravilha, do amor pleno. Mesmo em noites escuras, o amor de Cristo nos guia enquanto estamos tateando. Somos honrados por poder formalizar o amor em palavras e promessas, como Deus criou o mundo, com amor, falando. O significado que vemos no amor é muito mais belo e profundo do que o que a sociedade vê. Vivermo-lo na prática é um grande testemunho que temos a dar. Basta nos desarmarmos e simplesmente amar, ser constrangidos pelo amor de Cristo. Como ora a Deus, encerrando o filme, aquele personagem de “Amor Pleno”, depois de muito questionar a sua crise de desânimo: “Inunda nossas almas com Teu Espírito de vida / Tão completamente / Que nossas vidas só possam ser um reflexo da Tua / Brilha através de nós / Ensina-nos como Te procurar / Fomos feitos pra Te ver”. E, como diz o belo poema do já mencionado Karl Barth:

 O amor é "justiça equalizadora eterna" (Kierkegaard),
 porque a ninguém justifica segundo o próprio desejo;
 O amor edifica a comunidade porque unicamente procura comunhão;
 O amor nada espera porque já atingiu o alvo;
 nada procura, porque já encontrou;
 nada quer, porquanto já realizou;
 nada pergunta, pois já sabe;
 não luta porque já venceu.
 O amor não contradiz e, por isso, não pode ser refutado;
 não concorre e, portanto, não é vencido;
 não busca decisão e, consequentemente, ele próprio é a decisão.

 O amor destrói os ídolos
 porque não cria outros
  


ORAÇÃO SOBRE AMOR, BASEADA NO CREDO APOSTÓLICO, ESCRITA POR WILSON PORTE JR.
Deus trino, perfeito em comunhão e amor, Tu tens todo o prazer em Ti mesmo. Desde sempre, desfrutas deste prazer sem de nada mais precisar ou depender. Tu és, como Teu belo nome o diz. Pai com o Filho, Filho com o Pai, Filho com o Espírito, Espírito com o Pai, três pessoas perfeitas, vivendo uma perfeita relação de amor.
E eu aqui tentando imaginar o porquê de teres me criado. Aliás, o porquê de teres criado a espécie humana. Tu dizes em Tua Palavra que nos criou para conosco teres comunhão. Mas que necessidade mais há em Ti?
Certo de que nada Te falta, sobra-me a certeza de que a comunhão que tens comigo nada mais é do que um derramar, um transbordar do Teu perfeito amor. Ao transbordares de amor entre si, derramas este amor sobre nós, indignos perdidos, sujos, pecadores, rebeldes, agora tocados e constrangidos por este amor tão sui generis, tão díspar, incomparável.
Ao derramares tão doce amor sobre os Teus, ensinaste-nos a amar. Não mais como antes, mas como por Ti somos amados – não amamos para recebermos, não amamos para trocarmos, amamos porque naturalmente derramamos no outro o que Tu fazes transbordar agora em nós.
Quanto mais Te amamos, mais nos amamos. Não como antes, mas como fomos por Ti amados. Assim, pecadores egoístas, agora perdoados e lavados pelo sangue da nova aliança, chamados de santos por Ti, podem ter comunhão também, como o Pai com o Filho, o Filho com o Pai, o Filho com o Espírito e o Espírito com o Pai.
Que doce relação nos ensinaste a viver! Prenda-nos a Ti, ao Teu doce amor, a fim de que nada nos separe uns dos outros também. Prenda-nos a Ti, a fim de que os laços que nos prendem a nossos irmãos estejam cada vez mais fortes, inquebráveis.
Por Cristo Jesus,

amém.

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